Galeria Virgilio inaugura em 14 de abril a exposição
Pré-história, a nova individual da artista Sofia Borges

Em sua segunda individual na Galeria Virgílio, Sofia apresenta novos trabalhos que investigam as formas de representação do retrato e do objeto. São cerca de 15 fotografias que, por naturezas distintas, constróem o assunto de Pré-história.

Segundo Rafael Carneiro, que assina o texto crítico, “Tudo na exposição se apresenta, todos posam, todas as imagens no fim são retratos. Mas em todas Sofia executou operações distintas que tratam de nos afastar do que essas imagens teriam de registro. Ao invés de remeter a um tempo anterior elas insistem em continuar presentes. Se recusam a morrer. Através dessas operações de deslocamento, apagamento, construção; a artista enverga o que há de mais poderoso na técnica fotografica, sua capacidade de dizer isso foi. Sem quebrar o referente ela mantém a imagem plausível mas impede que a mesma retorne ao seu tempo original, confunde e dificulta o eterno retorno fotográfico, mantém a imagem oscilando, fantasmagoricamente presente.

Assim essa exposição parece dar mais um passo na tentativa da artista de organizar conjuntos de imagens cada vez mais diversos. Sofia reelabora sua equação mole. As diferentes escalas, as relações de cores, as diferenças de relevo parecem dialogar e reafirmar essa procura por imagens truncadas, esvaziantes. Como planetas de diferentes aspectos e tamanhos os trabalhos orbitam em volta da ausência, da inarticulação.”


P R É – H I S T Ó R I A

O retrato do senhor reptiliano nos encara bronzeado. O fundo laranja, o azul gráfico derramado, o relevo da pele escamada, a cabeça monumental, o grande olho da direita. Tudo nos parece estranho, porém existe, apresenta-se de forma irresistível e arbitrária. No ruído digital (ele é a fotografia de uma imagem impressa) está o último elo na cadeia de circunstâncias que media essa aparição deslocada, retalhada. Ao seu lado nas mesmas dimensões outro retrato de um homem levemente desfocado, ele aparece enconstado numa parede multicolorida, o sol se pondo ou nascendo. As manchas de uma polaroid velha como aura. Diferente de seu vizinho esse retrato se parece mais com um registro, porém há algo de estranho na escala, ela é demasiada grande para pertencer a uma memória. Recostado como um monte cinza coberto de sombras, sem olhos, sem identidade, ele se parece com uma casca. Lado a lado o velho excluindo o homem e o homem excluindo o velho estão mais para a presença material de pinturas do que para registros fotográficos comuns. Mais que dois defuntos, são dois exumados fundidos em seus sudários, imagens–frankstein.

Gigantes as duas pepitas de ouro uma bruta e outra polida ocupam o campo verde. Convivem na exposição ao lado do pequeno cavalo de papel algodão, super saturado, fotografia de uma reproducão de pintura que foi decantada, coberta em grande parte por áreas negras até que na medida correta restasse caprichoso e remendado o cavalo fora de foco. Na outra parede o grande retrato da moça loira que parece nos empurrar com os olhos e com o corpo pra dentro do mistério daquela aparência indefinível, ela é bonita? Se não é isso do que se trata?

Em todos os trabalhos nada acontece além da pose. Mesmo nas fotografias Aula sobre minerais e Estudo dos Pássaros nas quais algo parece acontecer, se trata apenas de uma pose secundária, uma apresentação dentro da apresentação. Os dois grandes retratos escuros, um cavalo malhado com sua cabeça quase invisível e seu duplo, as japonesas de quimono que parecem ter talhos no lugar dos olhos. Cortes não na pele mas na superfície brilhante que reflete a luz e nos revela que estamos diante da fotografia de uma impressão. A Coruja, o Camelo, a Vampira, tudo na exposição se apresenta, todos posam, todas as imagens no fim são retratos. Mas em todas Sofia executou operações que tratam de nos afastar do que essas imagens teriam de registro. Ao invés de remeter a um tempo anterior elas insistem em continuar presentes. Se recusam a morrer. Através dessas operações de deslocamento, apagamento, construção; a artista enverga o que há de mais poderoso na técnica fotografica, sua capacidade de dizer isso foi. Sem quebrar o referente ela mantém a imagem plausível mas impede que a mesma retorne ao seu tempo original, confunde e dificulta o eterno retorno fotográfico, mantém a imagem oscilando, fantasmagoricamente presente.

Apesar de sua aparência atraente esses trabalhos acabam nos empurrando para fora. Sussuram um idioma que quase se torna compreensível até que percebemos que não, é apenas um barulho. Um ready made pode ser um vaso ou uma nuvem, mas o melhor deles é aquele que mais esgorrega. Quanto mais sabão menos lugar pra ele na narrativa que vinha acompanhando, a que vinha respondendo. Está o mistério devolvido.

Sofia usa o poder indicial da fotografia para nos apresentar mortos-vivos. Dessa maneira após observá-los, após experimentar a presença desses objetos duas vezes fora do tempo, uma vez deslocados para o jogo e a outra deslocados do próprio tempo de uma fotografia comum, sou impelido por essas presenças a notar minha própria inarticulação.

Noto meu próprio retrato, deslocado, estrangeiro. A experiência desse desvio é seguida pelos fenômenos mais estranhos. A reapresentação. Somos semelhantes a esses retratos, carregamos nossas cadeias de sentido, temos origens e motivos organizando nossa ações e nossa relação com o espaço, mas de repente nossa consciência não pode explicar mais as circunstâncias e encaramos a nossa realidade despida das antigas muletas. Revisitamos o presente e seus infinitos ready-mades.

É para esse tombo que essas obras parecem conduzir. Sofia Borges está procurando por buracos, gatilhos que possam expor a falta de sentido da nossa condição. Já nas primeiras séries ela ultilizava a relação entre a fotografia e seu referente para construir imagens estranhamente incogruentes, uma fotografia formada por muitas outras, com um tratamento de luz e cor individualizado para cada objeto que tinham seus limites delimitados pelas áreas escuras que ocupavam grandes áreas da imagem. As coisas pareciam se dissociar, requerer independência e autonomia, se desconectando. A fotografia queria mimetizar a sensação de falta de sentido e a artista aparecia posando imersa na constelação de objetos flutuando ao seu redor. Ao invés de habitar o tempo ela esperava pelo retorno dele após seu congelamento na pose. Ela trabalhava nesses auto-retratos simulando falhas quando começou a encontrar buracos prontos. Ao invés de reconstruir uma situacão psicológica ela passou a produzir e encontrar imagens que continham em si toda potência para reativar sua dúvidas. Prontas, tesouros de eloquência.

A partir daí é um problema traiçoeiro tentar organizar as diferentes práticas que a artista tem usado para eleger suas imagens. Ela tem fotografado reproduções de várias maneiras: às vezes para apenas reproduzi-la mais uma vez com poucas ou nenhuma alteração, às vezes produzindo uma imagem totalmente nova como no caso do pequeno Cavalo Marrom e a dupla Cavalo Malhado e Japonesas. Suas imagens organizam-se cada vez mais pela negação, pelo desfiguramento progressivo do conjunto. Não há mais diferenças substanciais entre as imagens que encontra e aquelas que ela própria produz. Aceitando novos elementos ela quer pela inclusão de valores refinar a fórmula que agrupa as imagens. Ela parece dizer: minhas fotografias não são autoretratos, minhas fotografias não são sobre um procedimento técnico, eu não faço fotografia.

Assim essa exposição parece dar mais um passo na sua tentativa de organizar conjuntos de imagens cada vez mais diversos. Ela reelabora sua equação mole. Os aspectos escultóricos (as diferentes escalas, as relações de cores, as diferenças de relevo) parecem dialogar e reafirmar essa procura por imagens truncadas, esvaziantes. Como planetas de diferentes aspectos e tamanhos os trabalhos orbitam em volta da ausência, da inarticulação que operam na técnica fotográfica. Eles respeitam a uma vontade de posse da artista que interdita a origem das imagens e as reconstrói, e requisita para ficarem presas no presente material, absurdo. Junto delas se insinua em nós a mesma trajetória.

Rafael Carneiro


Abertura: Quinta-feira, 14 de abril de 2011 às 20h
Exposição: de 15 de abril a 07 de maio de 2011
Segunda a sexta, das 10 às 19h
Sábados e feriados, das 10 às 17h

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