Abertura: terça-feira, 14 de outubro às 20hs
Exposição: 14 de outubro a 06 de novembro de 2008


segunda a sexta das 10 às 19hs
sábado e feriados das 10 às 17hs


Trama

O excesso de luz branca que cega também pode inspirar a criação de fotografias que tanto registram o mundo visível, quanto abrem espaço para a imaginação. Roberto Cecato, um artista brasileiro radicado em Milão há mais de vinte anos, cria tramas e tece sua fotografia baseada na repetição de formas, na intermitência do preto sobre o branco, como se buscasse evocar a transcendência espiritual da meditação.

Seu trabalho de desmaterializar as árvores no inverno de Milão e dos Alpes busca reduzi-las a uma espécie de estrutura orgânica que se replica na natureza, como as veias que transportam e irrigam nosso sangue ou o sistema nervoso do nosso corpo. São linhas e formas dinâmicas que animam o espaço e o enquadramento. São linhas e formas orgânicas que envolvem a galeria e o espectador.

O espaço branco é invadido por linhas sinuosas e sensuais, que preenchem o vazio e a medida que avançamos nosso olhar sobre as imagens percebemos a força da conexão sugerida e sua intensidade narrativa. Um processo contínuo de preenchimento, como um fluxo permanente em busca das lembranças e dos esquecimentos. A superfície branca é invadida sucessivamente pelos galhos das árvores que criam um fluxo ritmado de onde nascem as formas, os volumes, as assimetrias.

Como fotografia percebemos a potencialidade figurativa do conjunto que remete à referência primeira; como imagem isolada, faz emergir abstrações geométricas que nos levam a uma experiência sensível que nos coloca frente a frente com o vazio e o silêncio. Somos arrebatados pelas imagens fotográficas de Roberto Cecato como se adentrássemos o território transitório do imponderável. Ele nos remete tanto ao universo inquieto de Jackson Pollock como ao incrível trabalho do indiano Prabir Purkayastha.
As leituras - do simples ao complexo e vice-versa - sugerem conforto e desconforto, agitação e calmaria, abstração e figuração. Nesse movimento provocado por Roberto Cecato, temos a certeza que as formas que saltam da paisagem branca são apenas espaços de provocação e contemplação. Presença e ausência, lembranças e memórias que serão despertadas nessas sutilezas compositivas. Um inequívoco exercício de encontrar o prazer nas formas simples do cotidiano da natureza.

Rubens Fernandes Junior
pesquisador e curador de fotografia


Desconstruindo e reconstruindo percursos

Entre o trabalho do artista visual e o que se escreve sobre esse trabalho existe uma tensão recíproca: um se apóia no outro de maneira instável, como numa tradução. Mas essa tensão se faz mais aguda, se evidencia mais quando o artista resolve trabalhar deliberadamente com os signos da escrita, desconstruindo-os, trazendo-os de volta a uma estranheza original.

Esse é o caminho que Marina Camargo escolheu explorar. Todos nós, letrados, nos acostumamos a ver os signos de uma língua conhecida como se fossem a coisa mais natural do mundo, quando eles são convencionais, arbitrários. Desconstruir o uso das letras e das palavras é lembrar que essa naturalidade não existe. Assim, Marina vai nos mostrar letras caídas, desfazendo-se de um texto e recolhidas nos dedos; letras invertidas dos nomes de cidades nos mapas (e desta vez o que se desfaz é o mapa, invisível); letras como palimpsestos, sobrepostas e apagadas num papel-carbono recolhido do lixo; letras ilegíveis traçadas meio inconscientemente, como garatujas, numa folha de papel... Não se trata de desconstruir por desconstruir. De um modo ou de outro, o artista está sempre ressignificando suas imagens, portadoras de significados novos, múltiplos, possíveis, nem todos intencionalmente visados. Não há como escapar das palavras. Elas retornam pelo menos no título das obras. Mas a escolha do nome Carbono-14, por exemplo, para a série de imagens em papel-carbono, também evoca o marcador químico usado para datações biológicas, evoca o tempo acumulado no que vemos. Jogar com a polissemia e a auto-reflexividade nas imagens, assim como nas palavras, sempre foi um traço característico da arte (não só a de agora, os artistas do passado também eram conceituais ao compor suas obras).

Mas esse processo intelectual, digamos, da elaboração de uma imagem se mistura com um outro, afetivo, no qual as palavras de novo se perdem; elas não dão conta de todo um percurso relacionado com a escolha das técnicas, dos materiais, das formas, das cores, da luminosidade, e também com a insistência em alguns temas – o gosto por mapas, por exemplo, que remete a percursos, reais ou imaginados, por cidades. Não dão conta da organização mesma que preside um trabalho minucioso (traduzido, por exemplo, na disposição de pastas num fichário). Tudo isso é posto nas entrelinhas, por assim dizer, de obras interessadas em mostrar o percurso para chegar até elas.

É o que Marina faz nesta exposição chamada Palavra Perdida. Nascida em Maceió, onde passou a infância, vivendo hoje em Porto Alegre e tendo já viajado por várias cidades do mundo, ela busca, neste seu percurso por garatujas, letras, páginas de livros, fichários, mapas e cidades, percorrer a si mesma de um modo cada vez mais consistente e cuidadoso. E se ela escolheu explorar este aspecto – a relação com a escrita – que não pode deixar de estar no centro das preocupações das artes visuais, é para valorizar e aprofundar a especificidade do gráfico e da imagem.

Paulo Neves

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