Felipe Cohen
Abertura: quarta-feira, 10 de setembro às 20hs
Exposição: 11 de setembro a 04 de outubro de 2008


João Paulo Leite
segunda a sexta das 10 às 19hs
sábado e feriados das 10 às 17hs


A Gravidade e a Graça

...a arte deve ser síntese sem deixar de ser um paradoxo
Bruno Tolentino

Já há algum tempo meu trabalho se desenvolve a partir da tensão dada pelo conflito de uma tradição da arte, principalmente da escultura, com formas contemporâneas de dispor o objeto. Essa tensão se dá basicamente por dois tipos de articulação: pelo contato de materiais nobres (mármore, granito, etc.), com materiais e objetos banais de uso cotidiano (caixa de papelão, copos descartáveis, sacola plástica, etc.); e pela atualização de um simbolismo tradicional, formalizado agora a partir também de uma articulação paradoxal em que elementos bastante distintos são obrigados a uma íntima convivência. Símbolos como a cruz, o cálice e pinturas antigas como “O sonho de Constantino”, de Piero della Francesca, são revisitadas de forma a reinterpretar e atualizar os sentidos e problemas ali propostos. Pretendo com essa articulação criar um espaço de contaminação no qual tempos, materialidades e funções distintas evidenciem um momento presente pelo movimento dialético dessas oposições.

Minha última série de objetos, denominada “Meio-dia”, presente nessa exposição, se apropria da idéia barroca de criar uma luz a partir das sombras de um corpo. São caixas de papelão cercadas por sombras negras feitas de granito onde realizo uma inversão em que o material nobre se mostra dependente de outro precário para a consecução de seu volume. Cria-se daí uma luz por contraste e, principalmente, uma inversão de intensidades onde a sombra que normalmente é conseqüência de um corpo iluminado passa a ter uma função estrutural na própria constituição do objeto. Com essa inversão, os objetos ganham também um caráter instalativo, tornando a luz do espaço em torno mais presente.

Como “Meio-dia”, os outros trabalhos da exposição também se formalizam a partir de movimentos contrários que se corporificam em sínteses. O que nessa exposição seria uma novidade é o uso da luz, ou sua “ausência”, como a matéria formadora do corpo dos trabalhos. A idéia aqui foi usar a luz como passagem dos diferentes materiais e objetos e sua ausência como forma de evidenciar os limites de cada objeto.

Em objetos como “Anunciação” e “A queda”, a luz funciona como um agente mimetizador, unindo materiais com densidades distintas, como o mármore e o vidro, o plástico e o mármore, transformando uma lâmpada e um cálice num só corpo luminoso.

Dentro dessa lógica acredito que a pertinência do título da exposição seria exaltar esse movimento dialético dos trabalhos. O nome da exposição foi tirado do título de um ensaio da pensadora francesa Simone Weil. Nesse ensaio a autora discorre sobre a redução da existência em duas forças, ou fenômenos: a gravidade e a luz. A “graça” do título se refere à possibilidade da transcendência, de uma resistência à gravidade. Quando li o ensaio reparei em uma semelhança grande entre suas descrições desses fenômenos e a constituição dos trabalhos dessa exposição. Além da luz que corporificava tudo, a gravidade estava sempre presente como contorno, desenho mesmo dos objetos. As abas das caixas da série “Meio-dia”, por exemplo, têm inclinações dadas pela gravidade, como também a lâmpada de “Anunciação”, que desce ao cálice pela presença dessa mesma força. Acredito que foi dentro da articulação tensa entre essas duas forças que tudo, de uma maneira ou de outra, foi formalizado para essa exposição.

Felipe Cohen
Agosto de 2008


Sobre León de Oro

Não é incomum desenvolvermos inesperadas afetividades por elementos que, à primeira vista, deveriam nos ser indiferentes. Não me refiro a cores e formas puras, mas a desenhos simples, que se repetem à exaustão, à nossa volta. Marcas, logotipos, distintivos, emblemas, silhuetas de mercadorias que freqüentam o nosso cotidiano.

León de Oro é uma exposição que se vale dos curiosos cruzamentos que podem ser percebidos entre o hábito, o dinheiro e o gosto. Todos os trabalhos presentes nessa exposição atentam para a lógica do logotipo, mas pretendem extrair desse universo uma expressividade que é aparentada dos objetos da natureza. Animais, acidentes geográficos e paisagens, que foram estilizados a partir de seus exemplares reais para se tornarem marcas, retornam agora ao mundo vulgar das coisas materiais em versões específicas. Paralelamente, sinais particularmente importantes da História estética do século XX surgem numa aparição diferente, insistentemente equívoca.

A cachoeira de acrílico é Água mineral. O arco íris perde suas cores e se torna um bibelô: O bebê de Rosemary. Tevês mudas mostram animais estáticos, numa antítese dos programas de natureza selvagem; é o Animal show. Malevich e os minimalistas revelam sua vocação publicitária.

Referências que se misturam; se forem bem sucedidas, irão sugerir linhagens não-explícitas.

João Paulo Leite Guadanucci
Setembro de 2008

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