Marcus Vinicius
Abertura: quinta-feira, 07 de agosto às 20hs
Exposição: 08 de agosto a 02 de setembro de 2008


Silvia Velludo
segunda a sexta das 10 às 19hs
sábado e feriados das 10 às 17hs


Promessa de Beleza

Conversando com Marcus Vinicius, e acompanhando sua produção já há vários anos, me dou conta, a partir de um comentário seu, de uma instância recorrente em suas exposições: a vocação para gerar expectativa que seus trabalhos despertam. Me explico melhor, para não dar margem a interpretações equivocadas – até porque essa sensação não seria incomum nem exclusividade de sua produção: refiro-me aqui a um sentimento de "o que virá depois" que se percebe amplamente manifesto, em graus diversos, a cada mostra sua, e reconhecido pelo próprio artista. Decidi então refletir um pouco sobre que fatores determinariam tal propensão, à qual eu mesmo já me vi aderindo outras vezes.

Fosse Marcus um artista "formulaico", do tipo que aposta em uma idéia a cada temporada, tal inquietação ganharia tons negativos, na linha do "e agora, como sairá dessa?"; mas não é o caso aqui - longe disso, aliás. Se há uma característica marcante em sua obra é a regularidade e coerência com que dá seguimento a uma pesquisa pictórica rigorosa e consistente, partindo sempre de uma concepção de estrutura-quadro que, somada a soluções plásticas que embutem forte componente de artesania e rigor compositivo, já se tornou reconhecível à distância. E talvez então aí esteja a resposta: o artista chegou a um estágio em sua trajetória em que suas peças se tornam a um só tempo familiares e surpreendentes, a cada exibição. O referido grau de "expectativa" advém de um ponto de equilíbrio atingido em sua produção situado entre a reinvenção e a repetição, buscando novos limites menos para efetivamente transpô-los que para deles extrair possibilidades de desdobrar sua investigação plástica.

Ainda que o trabalho se apresente com frescor renovado, os procedimentos técnicos e formais quase não se alteram; o dado artesanal presente na fatura esmerada - mas não necessariamente preciosista – está ainda lá, bem como a atenção à função, propriedade e relações entre materiais e elementos compositivos: o vidro que contém e reflete, as tintas industriais não preparadas, a movimentação interna em que o ritmo é imposto pela cor. Uma novidade nesse processo de decomposição da estrutura pictórica que Marcus empreende há tempos está nas "molduras" que tomam esses quadros mais recentes; trazidas de modo deliberadamente exagerado para o plano frontal, contrapõem-se à estrutura mais aberta e envolvente, quase "total" de peças anteriores. Não creio que com isso esteja em jogo uma súbita atenção ou interesse especial do artista pela superfície – seria de resto valorizar um elemento estrutural específico, o que não parece ter lugar na abordagem não-hierárquica da pesquisa de Marcus: assemelha-se antes a uma estratégia ou recurso compositivo que, algo paradoxalmente, confere mais liberdade ao artista, sobretudo no que se refere à experimentação cromática, agora francamente mais desprendida. "Sempre penso tudo como cor", afirma Marcus: é seu elemento-chave, seja como célula-matriz, como "espaço" ou elemento ativador [harmonizador ou desestabilizador] da composição.

O comentário a uma certa idéia de pintura segue sendo, a meu ver, o mote de Marcus há quase dez anos. Não por acaso, chama essa produção inédita de "Quadros tradicionais" – e por tradicionais subentenda-se o lastro de uma tradição que o artista revisita à vontade, num registro oscilando entre a reverência e a experimentação, a austeridade e a transgressão. Como de hábito, suas peças são auto-referentes - explicitam em si o dado processual e constitutivo -, auto-afirmativas, francas, sendo que agora o que nos acostumamos a assimilar como exercício de rigor oferece menos obstáculos a uma experiência de puro deleite visual.

O que nos traz à "promessa de beleza" que dá nome à exposição. De minha parte, prefiro compreendê-la na chave ambígua que anuncia: seja como um dado latente no trabalho já há tempos, na condição de uma oferta sempre não totalmente consumada, como beleza que finalmente agora se dá a ver de modo menos refreado.

Guy Amado


Arte Contra a Mistificação

No atual estado de coisas soa natural perguntar por que gostar de arte, tão indeterminada é a artisticidade de coisas e ações. O que pode ser comum a tudo o que chamamos de artístico e por que seria desejável?

O que é um bem ou uma coisa boa? O útil ou o belo? Aquilo que é bom para muitos em detrimento do que satisfaz a poucos ou o que convém aos poucos detentores de certa autoridade sobre o assunto ainda que a maior parte do público não se sinta tocado senão por meio de um esforço artificial? Qual seria esse assunto?

Os quadros de contas e aparelhos giratórios de Silvia Velludo são modos de se trabalhar com tonalidade e contorno. Portanto remetem a dois conceitos formulados por Heinrich Wölfflin, o linear e o pictórico. “O estilo linear vê em linhas, o pictórico, em massas”, explica o autor de Conceitos Fundamentais da História da Arte (1915). Os modos não-convencionais empregados pela artista para manejar categorias históricas apontam respostas para perguntas como as que foram feitas acima e justificam formulá-las.

A colagem de contas resulta de uma evolução de pinturas pontilhistas produzidas recentemente pela artista. Aquilo que agora se faz com colagem antes era pintado. A técnica empregada pelos pós-impressionistas franceses ao final do século dezenove consiste em compor tons através de pequenos pontos de cor que chegam à retina em forma de luz. O “impressionismo científico” evita a imprecisão da pincelada, que no entanto passou para a história como a pedra de toque da arte moderna.

Silvia Velludo utiliza contas, ou miçangas, que efetivamente consistem em pontos coloridos e brilhantes. Com isso é possível redimir a técnica pontilhista de seu purismo. Paul Klee havia feito algo semelhante no contexto expressionista com sua poética do ponto e da linha, como em Polifonia, de 1932. Mas esses novos procedimentos dizem respeito a um novo contexto.

Os aparelhos eletrônicos trabalham com linha e cor. Produzem uma transformação divertida de quadrados em círculos por meio de uma operação não muito diferente da construção de tons com a colagem de contas. O contorno dos quadrados é sublimado pelo movimento, pois a cor vibra no centro da figura, que é redondo, uma vez que as pontas se apagam. Cor e luz não permanecem cativas no interior das formas, pulsam livremente.

Os dois artifícios criados por Silvia Velludo atuam na retina, não nos objetos do mundo, mas na percepção do espectador, à flor da luz. Ainda que as contas sejam objetos do mundo, as impressões de tons e colorido produzidas por elas são puramente visuais, não ocorrem nos quadros, mas nos olhos. O mesmo vale para as figuras em movimento.

Linear e pictórico se alternam, como se os estilos que Wölfflin via como verdadeiras “visões de mundo” ressuscitassem da História para assumir novas formas no novo contexto em que não se excluem. São compossíveis pois são estilos desprovidos das visões de mundo. Essa postura diferenciada em face das obras de arte permite definir com clareza o caráter contemporâneo da exposição de Silvia Velludo.

Se um estilo era o reflexo do espírito de uma época, tudo se passa como se vivêssemos uma época sem espírito. Por outro lado, esta é a época em que todos os estilos são possíveis e a palavra “espírito” dissociou-se da experiência estética. Por isso uma artista contemporânea como Silvia Velludo pode jogar com o linear e o pictórico forjando novos procedimentos a partir da pintura pontilhista, da colagem e da arte cinética, estilos “modernos” também resgatados do limbo dos tempos.

Nesse caso, o que é propriamente artístico na exposição não está nas obras em si, mas no modo de fazer, nesses procedimentos ou artifícios inusitados que proporcionam uma retomada criadora dos conceitos da história da arte. Em As Vozes do Silêncio (1953), André Malraux menciona diferentes formas de arte e afirma que “em muitas delas a arte estava em segundo lugar para seus autores, enquanto nós subordinamos todas à arte”.

O momento atual então é um epílogo, agora os artistas já não têm a função de servir o poder político ou crenças religiosas. Ao mesmo tempo, é o momento em que todos os momentos anteriores podem ser presentificados, porém desprovidos de espírito, o que não é necessariamente ruim. A arte está em primeiro lugar no mundo da arte. A arte que se coloca a serviço de causas e coisas parece dogmática e inconsciente.

Uma razão para se gostar de arte, se for preciso haver alguma, é o caráter crítico da experiência estética, o fato de que as obras de arte não falam sobre o mundo senão para falar sobre si mesmas e nada nelas serve de pretexto para a impostura, a mistificação e a violência, que parecem não poder ser banidas do mundo real, nem mesmo do meio de arte.

José Bento Ferreira

rua dr. virgilio de carvalho pinto 426 Pinheiros - 05415-020 São Paulo SP - (5511) 3062-9446 / 2373-2999 -