RELEASE

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Ana Holck

Marcus Vinicius

Exposição 24 de agosto à 16 de setembro de 2006

Abertura   23 de agosto - quarta feira - às 20h

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs



Piso 1
Ana Holck : “Notas sobre obras”

A Galeria Virgilio apresenta trabalhos inéditos da jovem artista Ana Holck a partir do dia 23 de agosto. Tendo como tema pontes e construções, Ana Holck mostra duas séries de trabalhos inéditos, realizados este ano. São sete esculturas da série “Pontes” realizadas em viníl adesivo e acrílico e dez backlights da série “Canteiro de Obras”, onde a artista intervém com desenhos sobre fotografias de uma construção de grande porte. Ana apresenta ainda uma maquete de um trabalho já realizado: “Elevados”, uma grande instalação apresentada em 2005 no Paço Imperial, Rio de Janeiro.

A relação com a arquitetura e o questionamento da natureza dos espaços onde intervém são uma constante na origem de suas instalações, sempre em grandes dimensões, pensadas exclusivamente para cada um dos lugares onde intervém. Esta exposição é a primeira em que o processo de atelier realmente transparece, e em que as esculturas, apesar de trabalhadas em escala menor, projetam algo monumental como as pontes e a as fotos de uma construção de grande porte em obras, sobre a qual desenha. As duas séries de trabalhos foram pensadas simultaneamente e dialogam entre si, trazendo a tona o universo sobre o qual a artista vem se debruçando.


A artista Também apresenta paralelamente a exposição “Canteiro de Obras”, na Temporada de Projetos 2005-2006 do Paço das Artes. Abertura dia 6 de agosto a 17 de setembro, com texto crítico de Cauê Alves no catalogo da mostra.


Texto

“Pontes e Estruturas Imaginárias”
por Paulo Sergio Duarte

Esta exposição de Ana Holck difere de todas as anteriores. Antes havia a radical experiência de espaço na qual nosso corpo e o trabalho, em certa medida, se confundem (Transitante, na Galeria Candido Portinari da Uerj; Elevados, no Paço Imperial) ou definitivamente produzem uma alteridade, que posso chamar prosaicamente de “aqui” e “ali” pela própria impossibilidade de acesso ao espaço ocupado pela obra (Impedimento, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage). Todos eram trabalhos in situ; mesmo aquele no Centro Cultural São Paulo, no qual a relação com o lugar era um pouco mais frouxa pelas próprias características impostas pela difícil arquitetura do local. Lembremos apenas que essas instalações não trazem nenhuma carga narrativa ou anedótica, mantêm um explícito diálogo entre uma atitude contemporânea e o melhor passado moderno local, na sua vertente construtivista, e, também, com o minimalismo anglo-saxônico. Na confusão atual e seu turbilhão de imagens e sentidos lançados a torto e a direito junto às teias de subjetividades, as instalações de Ana Holck são de uma clareza atroz – dura e rigorosa – e se impõem como o próprio real, não como mais uma realidade.
Agora, nessa exposição, nos encontramos defronte a objetos que se confundem com maquetes de possíveis instalações. Tais como as obras anteriores, derivam da própria formação da artista em arquitetura, de sua reflexão sobre as estruturas e sua transformação em linguagem poética. Vistos nessa outra escala, quando para fruí-las tenho que retornar a uma posição contemplativa, posso observar com mais interesse a totalidade. Nas instalações, quando estou no interior da obra e dela sou parte, essa observação é impossível; ganho na experiência direta de meu corpo com o espaço gerado pelo trabalho, mas perco a possibilidade de organizar num único lance de olhar todas as suas articulações. Agora reflito tranquilamente sobre as estruturas imaginárias contidas nos microespaços transparentes constituídos pelas caixas de acrílico que recebem as “pontes”.
A primeira coisa que esses trabalhos me lembraram foi um artigo de Annette Michelson, que li no início da década de 1970. Ela narrava a experiência que teve ao ler o anúncio de uma edição da Crítica da razão pura ilustrada. Relatava suas ilações entre a leitura do anúncio e a caminhada até a livraria para a consulta da nova edição. Imaginava algo como as ilustrações de esquemas desenhadas por Lévi-Strauss para ilustrar as Estruturas elementares do parentesco. E arquitetava como materializar no desenho essas relações abstratas. Quando observo as caixas de espaço criadas por Ana Holck, penso que se encontram bem próximas de algo como as ilustrações imaginárias de relações kantianas. Não exagero. As caixas são euclidianas e não evocam nenhuma geometria imaginária, estão inteiramente contidas numa das categorias a priori da intuição pura, todas as estruturas são newtonianas, não há torções topológicas. Estamos dentro de exercícios poéticos delicados da mecânica e da grafostática.
São hipóteses de possíveis espetáculos espaciais que poderiam ganhar dimensões generosas, mas, ao mesmo tempo, colocam-se no extremo oposto da brutalidade de escala explorada na arte contemporânea em suas manifestações freqüentemente narcisistas. Transpostas das pequenas caixas para grandes salas, conseguiriam permanecer sutis e delicadas pela economia racional que explora na sua linguagem. E esta linguagem é a sua própria idéia. Não se trata de conceito, mas da Idéia da estrutura como linguagem, que reverbera em cada uma das “pontes” de Ana Holck.
Um “museu do cálculo”, apresentando raciocínios e projetos de pontes, mostraria as variações do conceito de estrutura de pontes. A coleção de estruturas imaginárias de Ana Holck, ao não perseguir a função de existir como um conjunto de pontes reais, mas somente de “pontes poéticas”, transcende o lado utilitário da estrutura e se apresenta como a própria Idéia de estrutura e a história de seu raciocínio, exatamente porque não persegue o inventário de estruturas realizadas, mas procura sua realização no campo poético das relações das estruturas virtuais entre si. Envelopadas pelo espaço das caixas transparentes, estas estruturas potencializam ainda mais a função de evocar e não conotar, do mesmo modo como Charles Rosen apresentou a diferença entre Idéia e conceito em Benjamin.

Rio de Janeiro, julho de 2006.

ROSEN, Charles. As ruínas de Walter Benjamin. In: ______. Poetas românticos, críticos e outros loucos. Tradução José Laurênio de Melo. São Paulo: Ateliê Editorial; Campinas: Editora Unicamp, 2004. p. 180.



Piso 2
Marcus Vinícius : “Hipnóticos,” “Expansivos” e “Horizontais”

O artista Marcus Vinícius abre dia 23 de agosto a exposição Hipnóticos, Expansivos e Horizontais. São 22 obras, que discutem a base da estrutura física do quadro como o retângulo ou quadrado, com dimensões pré estabelecidas, que ligado à parede preserva seus caracteres bidimensionais e cujos elementos podem ser estudados separadamente. A unidade das obras é garantida pela análise desses elementos que são organizados no espaço do quadro preservando e ativando suas funções e potencializando suas propriedades. Há uma ordenação que se dá a partir da cor e cujo desdobramento repõe a noção de pintura num horizonte expandido que avança sobre o espaço como indicação urbana, refluxo de um simbólico moderno.
Marcus vinicius mostra 22 pinturas em óleo sobre madeira e vidro em dimensões variadas.


Texto

"A cor das escolhas"
por Juliana Monachesi


Esta exposição, necessário que se diga antes de tudo, é composta de quadros feitos com uma alegria contagiante. Escolho a palavra “quadro” em lugar de “pintura” para frisar a dimensão objetual das pinturas de Marcus Vinicius. E escolho a palavra “alegria” em vez de algum eufemismo que indique a mesma coisa –energia, emoção, potência– para sinalizar de cara que o projeto que anima estas obras é uma razão excitada. Marcus Vinicius pinta com uma lucidez delirante: por necessidade e por puro prazer.

Artista que já conta bons 15 anos de trajetória –em que, se por um lado mantém rígida coerência na pesquisa acerca dos elementos constitutivos do quadro, por outro vem sendo capaz de se reinventar e escapar com inteligência das ciladas armadas por ele próprio– Marcus Vinicius já foi “lido” como variante da abstração geométrica, como continuidade da tradição concretista brasileira, e até como herdeiro de um “expressionismo pop”.

Nenhuma destas matrizes basta para ler os trabalhos das três novas séries que o artista apresenta na Galeria Virgilio: “Expansivos”, “Hipnóticos” e “Horizontais” têm um intenso diálogo com o mundo e com a cor entendida como fenômeno cultural. Marcus Vinicius não mistura tintas. Trabalha com as mesmas tonalidades que tingem nossas roupas, carros e embalagens de sabão em pó e alia esta dimensão mundana e subjetiva da escolha de cores à complexidade das combinações possíveis desta que é a variável mais inconstante da lógica visual. As cores, em sua obra, são índice franco da experiência humana.

A mais feia de todas as cores, um cáqui esmaecido, ganha ares simpáticos na composição de um dos “Expansivos”. Um verde incômodo, que não tem muita saída na indústria porque “não cabe em lugar algum”, segundo o artista, encontra espaço entre um verde-água e um cinza, um pouco se escondendo, um pouco revelando as intenções mais íntimas do quadro. A escolha, em uma pintura, de tons naturalistas lastreáveis na experiência da paisagem paulistana contrasta com a eleição, na pintura ao lado, de cores mais afeitas à paisagem midiática.

Marcus Vinicius gosta de falar sobre a “química interna do quadro”. Cores deliberadas aplicadas sobre superfícies (madeira ou vidro) encaixadas que devolvem ao observador a opção por desvendar a intrincada montagem mental que levou a cabo a obra diante de seus olhos. Os “Hipnóticos” não têm pequenas dimensões por acaso: eles pedem uma aproximação para que os vértices e retas internas sejam desvelados e para que o jogo de espelhamento seja testado. Onde está a cor nestes quadros? No fundo, nas bordas, nas reentrâncias? E qual o papel do espelho que, conforme a cor de fundo, absorve mais ou menos do entorno do quadro?

Avesso às “coisas aderidas”, o artista intitula a série de quadros horizontais com esta mesma palavra, num jogo tautológico que faz pensar que os “Expansivos” têm alguma ousadia a mais. Têm mais expressão, mais brincadeira, têm diagonais que definitivamente não caberiam nos “Horizontais”, têm áreas de cor intensa espremidas por um retângulo branco que dão, no contexto contemporâneo, condições de existência a este branco absoluto. Marcus Vinicius é, afinal, um apaixonado pelos jogos cromáticos e formais que deixou, há muito, para trás, as amarras do cromatismo e do formalismo. Diverte-se e contagia o observador indelevelmente com sua joie de vivre.

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