RELEASE

Exposição 10 de Fevereiro a 18 de Março de 2004

Abertura   10 de Fevereiro às 19 horas

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 15hs

A Galeria Virgilio inaugura no 1ºPiso a mostra "O Objeto como Imagem" com 8 artistas da nova geração. Felipe Barbosa, Adriana Tabalipa, Rosana Ricalde, Nino Cais, Silvina D'Alessandro, e Veronica Cordeiro, elaboram suas obras a partir de objetos comuns do cotidiano, reinseridos singularmente como material imagético de poéticas visuais.
Tatiana Grinberg usa o corpo como matriz para a construção de caixas receptáculos, onde a forma se define num jogo de complemento e ausência. Tais Ribeiro extende a pintura para planos de tecidos superpostos como camadas de cor e matéria.

No 2º Piso , Mostra de Fotografia .
Flávia Bertinato e Leonardo Ferreira usam a fotografia como suporte de um olhar que retira a imagem do interior mesmo de seu esgotamento para reapresentá-lade modo diverso como crítica dos artifícios da percepção.
Horário de funcionamento:
Segunda a Sexta de 10:00h às 19:00h
Sábado e Feriado de 10:00h às 15:00h
Convênio com estacionamento



Texto de Taisa Helena P. Palhares

O desejo de fixar um registro objetivo de situações convencionais, evitando o caráter informativo e didático da fotografia documental revela-se como um traço comum às fotos de Flávia Bertinato e Leonardo Ferreira expostas na Galeria Virgílio. A nenhum dos dois interessa determinar, mediante detalhes e pequenas pistas, a identidade do referente. Também não está em jogo "descobrir" uma outra visão da realidade conhecida, em geral identificada por títulos, como ocorre em discursos fotográficos contemporâneos. Aqui o sujeito por trás da câmara não possui essa força. Seu papel é mais singelo: observar e fotografar. Ele renuncia à obrigação de elaborar grandes narrativas teóricas através da imagem e dispensa à complexidade das elaborações técnicas. Neste sentido, a relação desses artistas com o mundo é mais simples e direta.

Mas alguém poderia perguntar: não seria já toda percepção humana de algo a construção de um olhar singular? Com certeza. Essas fotografias não negam seu caráter humano enquanto resultado de uma ação mediada pela técnica. Seria impossível pensar numa falta total de envolvimento, seja da natureza que for, do fotógrafo com seu objeto. No entanto, o que de certa forma chama a atenção nesses trabalhos é o modo como ambos os artistas não se sobrepõem a ele, antes aceitam-no como são, em sua expressividade própria. Para isso, é preciso abrir mão de uma vontade de encantamento, ou melhor, re-encantamento do cotidiano cada vez mais recorrente nos dias atuais.

Nas ampliações digitais de Flávia Bertinato o tempo está em suspensão. Animais, brinquedos, carros, o jogo, estão concentrados num presente aparentemente perpétuo. Estáveis e vazios, fora do tempo, coisas e paisagens expõem uma naturalidade que parece derivar do convívio cotidiano ou total adaptação ao espaço circundante e do completo conhecimento de si. No entanto, a situação imóvel em que se encontram parece indicar uma tensão. Como se esse ponto total de concentração significasse a passagem para o processo de extinção. Em sua estrutura porosa e chapada, essas imagens tem um caráter fantasmal. A ampliação retira lentamente a matéria e limite das coisas, concretizando na superfície a passagem do tempo com a qual a imobilidade parece lutar. Mas não há nostalgia, o desejo de conservar experiências perdidas. Nessas fotografias o trailer, a cortina de veludo, a construção antiga, o brinquedo ultrapassado, a entrada deteriorada, encontram-se plenos, talvez pela última vez, mas ainda orgulhosos de sua presença. Como o bisão ancestral e pesado, que em sua atitude contida e firme, espera naturalmente por seu desaparecimento.

Também as séries fotográficas de Leornado Ferreira fixam a suspensão de um movimento. As ações indicadas pelas máquinas e mãos anônimas não se completam. O ambiente asséptico remete ao mundo industrial e a presença do homem na produção. As etapas do processo são registradas de um ponto de vista particular e expostas de forma fragmentada. Não é possível reconstruir a totalidade. O que interessa é a concentração no momento e em cada objeto em si. Por certo o artista paralisa um processo que parece autônomo, revertendo de certo modo a ordem do tempo, mas sem eliminar seu efeito.

Curiosamente, nota-se que tanto Flávia Bertinato quanto Leornado Ferreira transformam prontamente essa aproximação "desinteressada" pelas coisas em distância. As fotos do artista colocam o observador numa posição estranha de intimidade com algo que ele só conhece como resultado. Entretanto, essa aproximação excessiva gera um afastamento por sua desconexão. Também os referentes nas fotografias digitais de Flávia sugerem uma dissolução e deterioração à medida que são tornados mais próximos visualmente. Em verdade, algo da singularidade desencantada dessas imagens reside na reprodução dessa ambigüidade.

Texto de Sergio Romagnolo

O objeto como imagem: A volta da representação

A intenção deste texto é propor outro entendimento sobre as obras que utilizam objetos comuns, de uso cotidiano, de uma visão que leva em conta a atitude dessa escolha para uma outra visão que pensa no objeto como um elemento de composição como outro qualquer.

Quando em 1913 Marcel Duchamp realiza seu primeiro ready-made, embora não com este nome e tampouco com a intenção de que fosse uma escultura, segundo ele mesmo afirma em entrevista à Pierre Cabanne , Duchamp funda uma nova forma de produzir arte. Inicialmente o uso de um objeto do mundo comum ser colocado como arte já era por si só um assunto em si mesmo. Estranhamente esse assunto ainda causa alguma polemica hoje, pelo menos nos meios mais diletantes da arte. Mas no início do século um objeto já pronto, industrializado, se tornar arte colocava em cheque os limites da própria arte. O que Duchamp nos diz nem sempre parece verdade, mas é o que temos para pensar sobre sua obra. Ele diz à Cabanne que a "escolha do ready-made é sempre baseada na indiferença visual, e ao mesmo tempo, numa ausência total de bom ou mau gosto" , mas será que uma roda de bicicleta colocada simetricamente sobre um banco e esse conjunto sobre uma base, como uma escultura, não teria uma relação de composição e consequentemente com o bom gosto? Mesmo quando Duchamp fala de como teria pensado em pintar um moedor de chocolate, pode-se perceber um certo encantamento com a visão repetida da máquina e sua relação com os eventos emotivos familiares , como se a relação familiar passasse por um moedor. Uma das transformações que se coloca com o primeiro ready-made é que nesses termos a escultura não está representando uma figura, ela está se apresentando como ela mesma, sem representação, sem alegoria.

Mais tarde Joseph Beuys é quem continua a dar mais um passo para a construção de uma linguagem autônoma dos objetos já prontos. Depois de ter tido seu avião abatido durante a segunda guerra , Beuys começa a utilizar objetos e materiais comuns, não artísticos, para construir suas obras, os mesmos materiais e objetos com os quais conviveu durante seu tratamento, quando recuperava-se dos ferimentos sofridos em consequiência da queda. Com essa atitude as obras passam a não mais discutir se um objeto pode ou não ser uma obra de arte, mas impregnam estes objetos de uma densidade inédita até então. O objeto passa a ser uma matéria maleável para a construção de obras quase como o barro. Aqui, a escultura também não representa, mas a matéria e os objetos recolocam um significado alegórico: a gordura animal, o mel e a abelha significam a transformação da matéria e a elaboração da vida, a escultura passa a significar ao invés de representar.

Já recentemente o artista americano Matthew Barney contribuiu novamente para a linguagem dos objetos já prontos. Com suas performances sem público, gravadas em video compostas por objetos construídos ou transformados, personificadas por figuras híbridas de uma auto-mitologia, Barney colocou mais uma peça nessa linguagem que se vale dos objetos. Seu ciclo de cinco vídeos: Cremaster 4 (1994), Cremaster 1 (1995), Cremaster 5 (1997), Cremaster 2 (2000) e Cremaster 3 (2003), terminado em 2003, filmados nesta ordem, demonstram quão infinitas podem ser as possibilidades da obra que utiliza o objeto como matéria. Barney combina a significação da matéria de Beuys com o poder alegórico do objeto. A vaselina presente em muitas de suas obras, assim como nas obras de Beuys, pode ser vista metaforicamente como um veículo biológico, como parte de um corpo. Os dirigíveis, pérolas, esferas de vidro ou de pelo artificial podem ser vistos como outra parte do corpo, os testículos, já indicado por ele mesmo nos títulos dos vídeos.

Estes três artistas, um do início do século, outro do meio e outro do fim, podem representar uma infinidade de artistas que igualmente utilizaram objetos nesses momentos. Existe um elemento comum entre esses artistas. Os três trabalharam em momentos nos quais a industrialização sofreu um impulso de avanço, ou seja, a produção em série no início, o surgimento da cultura de massa no meio e a digitalização da informação no fim do século. Nesses três momentos ocorre um sensivél aumento da produção, seguido de um aumento do consumo e consequentemente aumento de excedentes de objetos industrializados. É curioso pensar como entre os dois primeiros eventos, por volta dos anos 30 existiu o que se convencionou chamar de "volta á ordem", e entre os dois últimos eventos por volta dos anos 80 existiu outra convenção designada como "volta à pintura", sinalizando um movimento pendular entre pintura e objeto.

Depois de quase um século do primeiro ready-made de Duchamp, não se discute mais se o uso do objeto é pertinente ou não, pelo menos não nos meios iniciados. O que aconteceu e não percebemos é que a linguagem do objeto passou para outro nível, para o nível da imagem. O universo dos objetos hoje é tão grande que chega a ser quase infinito. A escolha de um objeto nesse campo quase infinito funcionaria como começar a desenhar em uma folha de papel em branco. Nesse sentido só a própria escolha já é tão pessoal que acaba sendo ela mesma uma construção. Quando um artista escolhe um banco tudo acontece como se o artista tivesse construído esse banco, dada a infinidade da oferta. O objeto opera como uma imagem construída pelo artista. Se eu escolho uma embalagem, esta embalagem funciona como se tivesse sido criada por mim; pelo menos no campo da arte, da linguagem e da imagem.

Em função desse outro nível de significação e leitura do objeto, sobre o objeto como imagem, não tem mais sentido por exemplo um olhar formalista, como quando se vê um parentesco com outro artista simplesmente por este ter escolhido o mesmo objeto. Se o objeto é uma imagem e não ele mesmo, se o objeto é, agora, uma representação e não mais uma apresentação, ele é parte da linguagem como uma cor ou uma forma. Não se juntam pinturas só por que são amarelas.

Os oito artistas que a Galaria Virgílio mostra, trabalham todos com objetos, mas os utilizam como imagem, representam seu universo através desses objetos de uma maneira pessoal. As obras atuais que utilizam objetos requerem mais tempo para sua fruição. Parece uma má notícia a princípio, mas não é. Na verdade percebe-se hoje em todas as áreas um aprofundamento da linguagem e esse aprofundamento requer um olhar mais demorado e aguçado. Imagine como no cinema alguns filmes recentes se utilizam de montagens super dinâmicas e quebra da linha temporal, indo do passado ao presente e futuro em segundos. O aumento das exigências para a fruição retorna em aumento da qualidade e sutileza da obra.

Nas obras de Nino Cais, por exemplo, os objetos assumem um papel de significação, o objeto de uso masculino, do vestuário ou ligado a alguma atividade de trabalho como ferramentas, ocupam um lugar ligado à figura paterna e objetos femininos à figura materna. Mas além dessa significação os objetos podem ser utilizados por Nino como uma peça, uma engrenagem de uma máquina, ou de andar, como em seu vídeo, ou de habitar a parede, como acontece com as suas esculturas. Na cadeira com pés de foice as partes perdem suas características e se unem numa imagem completa, como uma cadeira perigosa. Assim como as geodesias e formas esferóides de Felipe Barbosa, cujos esquadros e palitos de fósforos estão na escultura para compor partes de um todo, como peças de um quebra-cabeça geométrico, e mesmo assim ainda persiste o sentido de perigo de incêndio presente nas obras.

A engenharia da união entre significação e maquinismo aparece de forma diversa na obra de Adriana Tabalipa. Os objetos ligados à infância e ao uso doméstico, já de significados nostálgicos eles mesmos, se unem estranhamente de forma exata e quase industrial para compor uma forma monstruosa, meio ser pequeno, meio robô, como em sua escultura com "tip-top" com cabeça de disco voador. Adriana consegue ainda sobrepor a tudo isso um pouco de sarcasmo e humor. O humor também está nas obras de Rosana Ricalde, com suas intervenções e substituições urbanas, o espelho de água mineral em garrafas na frente do prédio, a parede de pães na cidade ou a casa submersa no chão.

Tatiana Grinberg insere seu corpo em buracos executados por ela, nesse caso o corpo é tratado como objeto, como um boneco numa caixa ou um corpo no caixão. O objeto corpo procura um lugar no mundo, como se o corpo fosse a alma do mundo e coubesse dentro dele.

Duas artistas trabalham com objetos moles, Taís Ribeiro e Verônica Cordeiro. Taís usa peças de tecidos ou partes de roupas e outros objetos moles como toalhas e enfeites de crochê para montar e formar suas pinturas. Verônica se vale de linhas de costura para desenhar figuras humanas sobre a parede. O uso de objeto mole já havia ocorrido em 1916 quando Duchamp utilizou uma capa de máquina de escrever com a marca "Underwood" para fazer o seu ready-made "Traveler's Folding Item", mas apesar disso essa prática nunca foi tão comum, talvez pelo fato de situar-se entre a colagem e a assemblage, entre a pintura e a escultura, como um objeto artístico híbrido.

Os objetos têm um sentido regional e temporal, se um artista trabalha com um objeto comum em uma cidade ou país em determinada época, essa obra fica vinculada à essa época e a esse lugar. Mostra disso é a artista Silvina D'Alessandro presente na exposição com esculturas feitas com sacos de leite, tal como são produzidos na Argentina. Esses sacos diferem dos sacos de leite existentes aqui, pois têm o interior preto e é justamente esse preto que a artista trabalha quando desvira o saco deixando-o aparente. São formas irregulares que se instalam na parede ou nos cantos da sala buscando uma relação com a arquitetura do espaço expositivo.

Uma das vantagens da utilização de objetos já prontos para a construção de obras de arte é que se economizam etapas da construção, de modo que o assunto principal da arte, ou seja a sua própria definição e essência, passem para o primeiro plano, sem nada que atrapalhe essa visão. Assim antes de um artista pensar como vai transformar um bloco de mármore em uma forma, se ele trabalhar com o objeto pronto, ele já pode começar a pensar como essa forma se torna arte, ou como a arte se torna arte.

Estes artistas estão colocando o objeto não mais como uma forma que se apresenta e nem como uma matéria que significa, estão colocando o objeto como uma imagem que fica a serviço da sua expesssão, uma engrenagem de sua máquina, um atalho para a definição fundamental da arte.

rua dr. virgilio de carvalho pinto 426 Pinheiros - 05415-020 São Paulo SP Brazil - (5511) 2373-2999