RELEASE

Duas Mostras Simultânêas:

“Acumulações” Individual de Ivens Machado

“Paisagem Bruta” Curadoria de Luiz Camilo Osorio

Exposição 28 de setembro à 28 de outubro de 2006

Abertura   27 de setembro - quarta feira - às 20h

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs

A Galeria Virgilio apresenta a mostra Acumulações do artista IVENS MACHADO trazendo esculturas em grandes dimensões criadas a partir de acumulações de pedras portuguesas de diferentes colorações, pedras de carvão, restos de entulhos, além de trabalhos em toras de eucalipto tratado, ferro e cimento, num total de 40 obras, que vão ocupar os dois pavimentos da Galeria a partir do dia 27 de setembro próximo

N.º de obras: 40
Suporte madeira, cimento, ferro, aramado, carvão, pedras e entulho
Dimensão de 40 cm x 100cm. a 70cm x 400cm x 40cm
Preço de R$ 5.000,00 a R$ 35.000,00

Ass. Imprensa MGM Marcia Marcondes/ Silvia Balady
Tel.: 3667.716 7/ Fax.: 3825.7165 mgm.tom@uol.com.br


A Galeria Virgilio abre suas portas para receber os trabalhos mais recentes de Ivens Machado, um escultor antenado com a sensibilidade e a estética dos dias de hoje.Seu trabalho constitui-se na linguagem das “acumulações”. Acumulações que indicam metamorfoses estruturais e conceituais dentro da obra escultórica, no qual se conjugam questões tanto de superfície, por vezes de transparência, como de volume e de espaço, enquanto presenças físicas evocando formas intemporais das culturas populares, primitivas e arcaicas. A abertura da exposição está marcada para o dia 27 de setembro próximo.

Dono de uma poética onde o erotismo e a sensualidade das formas por ele criadas rivaliza com a brutalidade dos materiais, Ivens Machado, que nasceu em Florianópolis e adotou o Rio como cidade para viver e trabalhar, produz transformações ao colocar os objetos em movimento e em relação uns com os outros. De maneira organizada ou aleatoriamente, o processo de acumulação, marcadamente impessoal, nega o trabalho singular ou o indivíduo criador, buscando dar, como diz o artista, “espaço e voz aos restos’.

A estética de Ivens Machado vem subvertendo a modelagem como procedimento tradicional da escultura ao explorar possibilidades plásticas inerentes ao cimento, como sua maleabilidade, e as diversas técnicas e materiais, como ferro, pedra, telha, caco de vidro, arquitetando formas e espaços, formas orgânicas, ambíguas e indeterminadas, de claras afinidades com certos aspectos da poética surrealista em sua materialização de imagens inconscientes e fortuitas.

Em suas esculturas, o processo produtivo parece situar-se em um intricado diálogo entre a atividade do peão que ergue paredes, “tijolo por tijolo num desenho mágico”, e a do engenheiro que pensa “o mundo que nenhum véu encobre”, como diz o poema de João Cabral de Mello Neto. Operando com entulhos, resíduos de materiais do universo da construção, seus múltiplos parecem radicalizar a negação da expressão de uma subjetividade projetada e encarnada em um objeto, afirmando a necessidade de esquecer o eu, de esquivar-se e implodir qualquer projeto regulador.
Para o curador da mostra, Luiz Camillo Osório, “os materiais que Ivens utiliza em suas obras se juntam sem se misturarem, apostando no risco da convivência como se cada material fosse uma força contrária à adequação na unidade. Cada material mantém sua personalidade, afirma sua diferença no contato, na tensão e no abandono.”
As esculturas de Ivens Machado estão na mostra “Acumulações”, que fica em cartaz até o dia 28 de outubro na Galeria Virgilio.


Carreira prodigiosa

Participou por quatro vezes da Bienal Internacional de São Paulo (1981, 1987, 1998 e 2004); integrou a delegação brasileira na XIII Bienal de Paris, Novelle Bienal de Paris (1985); fez parceria com Chris Dercon e Alanna Heiss, para a mostra Brazil Projects, no PS1Projects Studios One), em Nova York (1988). Em 1993, participa com cadernos da exposição Brasil Segni d’Arte: Libri e Video, 1950/1993 em itinerância pelas cidades de Veneza, Milão, Florença e Roma; em 1996 realiza dois projetos para o evento Arte - Cidade - A Cidade e suas Histórias.
Fez e instalou esculturas em diversos lugares do mundo: Lago di Monate, em Varese, Itália dentro do projeto Arte Lago 90: Opere D’Arte per la Superfície (1990); parque de esculturas do Museu de Arte da Bahia (1996); Jardins da Pinacoteca do Estado de São Paulo (2000).

Participou de importantes mostras, como Bienal do Mercosul, em Porto Alegre (1997), onde apresentou o Mapa Mudo de 1979, uma de suas obras mais emblemáticas; a exposição Re-aligning Vision, Alternative Currentsin Sout American Drawing, com rolos, caderno de pautas e desenhos, com itinerância por dois anos pelas cidades de Nova York, Little Rock (Arkansas), Austin (Texas), Caracas, Monterey e Miami (1997); mostra O Espírito de nossa época; Arte Brasileira no Acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo - Doações Recentes (1998); Mostra do Redescobrimento / Arte Contemporânea, na Fundação Bienal de São Paulo, Parque Ibirapuera (2000) - a exposição segue em cartaz com o título Século 20: Arte do Brasil, Projeto Brasil +500, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


Texto

ABANDONO E GRAVIDADE

A casa e o ateliê de Ivens Machado ficam na entrada do Vidigal. Entre a favela e o atlântico, ele habita o coração das contradições cariocas. De um lado, a energia viva do desastre, do outro, o horizonte sem fim do mar aberto e luminoso. Neste ambiente ele produz suas esculturas onde vemos acumularem-se fragmentos de matéria bruta de um mundo áspero, silencioso e cinza. Toda a tensão concentrada de suas peças não lhes retira uma potência lírica, uma economia poética voltada para o que se mantém junto pela solidariedade intrínseca dos materiais. Lirismo da gravidade e do peso.
Desde os anos 70, no começo, portanto, de sua trajetória, a contenção é um elemento determinante de sua poética. Não se trata de uma contenção minimalista, nem, tampouco, conceitual. Se falarmos de um diálogo de geração, levaríamos sua obra para perto da arte povera. Há uma recusa do excesso e da carne, uma procura pela ossatura bruta do mundo industrializado. O peso e os materiais das suas esculturas enfrentam a leveza e a lógica decorativa que regem o olhar pacificador do consumo.
Em um pequeno texto escrito pelo artista em 1975 ele observa que “a opressão está diretamente ligada à problemática dos opostos que se dilaceram na identificação”. Esta passagem tem interesse ao revelar, por um lado, a tensão política vivida àquela altura e que o seu trabalho enfrentava com coragem. Por outro, apontava para uma razão poética que iria conduzir sua obra: os opostos se enfrentam sem submissão a uma unidade composicional, afirmando, ao contrário, uma tensão corrosiva. Os materiais se juntam sem se misturarem, apostando no risco da convivência como se cada material fosse uma força contrária à adequação na unidade. Cada material mantém sua personalidade, afirma sua diferença no contato, na tensão e no abandono. As esculturas de Ivens, na secura bruta dos materiais, recusam toda facilitação do apelo sensorial. Tudo nestas peças é exterior e silencioso.
Outro aspecto recorrente em sua poética, que vem desde as interferências nas pautas de caderno do começo dos anos 70, é a relação entre série e acumulação. Seu gesto é repetitivo sem ser sistemático. A agregação de linhas, pedras, cacos, tocos e entulho, vai acontecendo sem uma regra determinante. Se não há regra, tampouco se revela a arbitrariedade ou o acaso. O que se acumula através do gesto do artista responde a um processo maturado na intimidade do trabalho.
As esculturas de Ivens são como organismos elementares de um mundo devastado pela desmedida urbana. São uma espécie de cactos nascidos no seio de um deserto civilizatório. O ato de juntar e de acumular fragmentos parece interessado em reunir energia dispersa, recuperar uma economia produtiva que estaria perdida no fascínio do consumo e do glamour. A presença bruta destas peças tem mais a ver com concentração de forças do que com realização formal. Não que a forma não interesse, mas ela não se descola do processo de produção e do movimento interno dos materiais. A forma é o resultado de um equilíbrio, ao mesmo tempo precário e preciso, entre a vontade formal do fazer e a resistência informal da matéria.
É interessante situar esta obra no desenvolvimento da escultura contemporânea brasileira, tão marcada pela matriz construtiva com sua necessidade de vazio, ar e respiração. É curioso comparar o gesto rápido dos cortes do Amílcar de Castro e o árduo manuseio do concreto, das pedras ou da madeira em Ivens. Um abre a forma para o espaço do mundo, o outro fecha o espaço na densidade da matéria. Esta contraposição com a idealidade da forma construtiva também deve ser desdobrada, pensando-se em termos do desenvolvimento experimental posterior ao neoconcretismo, na rejeição do espectador participante, do jogo lúdico entre a forma plástica e a interação do público. As esculturas de Ivens, na verdade, evitam a intimidade pelo contato e mostram uma aspereza nada cordial. Quem tocou no ponto decisivo neste aspecto, foi o filósofo Eduardo Jardim em texto sobre a obra de Ivens. “No esforço de abolir a diferença entre arte e experiência, arte e vida, nenhuma das partes sai ganhando. Nem a arte, já que perde sua possibilidade de dizer alguma coisa além da experiência, nem a experiência ou a vida, que não pode ser questionada pela intervenção da arte”. Não se trata de negar a experimentação, de uma aposta reativa ou nostálgica visando resgatar as normas e o distanciamento da tradição. O que interessa é o espaço aberto, sempre em transformação, entre a arte e a vida. A obra de Ivens habita este espaço, resistindo a toda acomodação formal que se afasta do mundo pela recusa do conflito. A brutalidade física destas esculturas não se conforma nem se acomoda aos valores estabelecidos. A exterioridade e o silêncio, mencionados anteriormente, dão uma dimensão não-conciliatória a estas esculturas, em que o sujeito não se integra nem se dissolve na experiência.
Vemos uma espécie de retorno à terra depois do vôo construtivo. Há um diálogo indireto com os bólides do Oiticica (sem o manuseio) e com as trouxas do Barrio, com tudo o que resiste neles ao olhar adaptado à bela forma do design e que quer devolver à arte uma certa memória do chão, do peso, da pedra. A potência das coisas concretas somada à temporalidade ancestral e ao gesto primitivo - juntar, acumular, agregar - dão à poética de Ivens uma vitalidade provinda da ação física, do fazer não domesticado das mãos. Uma mão que não quer a sofisticação do acabamento, do saber fazer, da manipulação técnica da matéria. Uma mão hesitante que se arrisca ao erro e se deleita com as impurezas, que nos põe diante da diferença fundamental entre uma forma necessária e uma forma trivial. A obra de Ivens tem um lugar fundamental e solitário no desenvolvimento da escultura contemporânea brasileira.

Luiz Camillo Osorio - Agosto de 2006.



Exposição Paisagem Bruta - Mostra coletiva de artistas representados pela Galeria Virgilio, que inaugura as novas instalações de um anexo de 400m chamado de virgilio b_arco, um espaço cultural múltiplo que vai promover oficinas, encontros, cursos, eventos, palestras, performances e novas mídias relacionadas às artes em geral. Curadoria de Luiz Camillo Osorio

N.º de obras 34
Técnica Pintura, escultura,fotografia,video e instalação
Dimensão de 30x40 a 80cm x 8m
Preço de R$2.500,00 a R$30.000,00

Ass. Imprensa MGM Marcia Marcondes/ Silvia Balady
Tel.: 3667.716 7/ Fax.: 3825.7165 mgm.tom@uol.com.br


Como o próprio título diz, Paisagem Bruta remete à percepção da cidade como energia dilacerada, em que o curador, Luiz Camillo Osório buscou em desenhos, vídeos, pinturas, fotografias, esculturas e objetos de artistas como Afonso Tostes, Ana Holck, Fabio Flicks, José Rufino, Marcone Moreira, Nino Cais, Wagner Morales, entre outros, que mostram a fragmentação e a brutalidade de uma cidade grande.

Nas obras expostas a cidade aparece como imagem, materialidade, símbolo, fragmento e luz. Esta é a brutalidade que se faz paisagem. Cada artista parte do que está à mão: dos materiais e da tecnologia necessários, dos resíduos e dos sonhos disponíveis, apropriando, deslocando, processando, produzindo uma visualidade ao mesmo tempo real e imaginária.

A mostra paralela pretende estabelecer um diálogo com exposição das obras do maior escultor brasileiro vivo, Ivens Machado, que também será inaugurada no dia 27 de setembro, e esta aproximação seria também uma forma de criar um eixo, tanto conceitual como formal, para a seleção das obras. “Olhando a lista de artistas da Galeria Virgílio, com a obra de Ivens na memória, fui percebendo uma possibilidade de abordar a paisagem urbana no que ela tem de brutalidade e fragmentação”, diz o curador. A mostra fica em cartaz até o dia 27 de outubro.

Artistas participantes da mostra
Afonso Tostes, Ana Paula Oliveira, Ana Holck, Biasino Gesualdi, Dália Rosenthal, Eduardo Frota, Fabio Flacks, José Rufino, Marconi Moreira, Marcus André, Nino Cais, Osmar Pinheiro, Paulo D’alessandro, Paulo Jares, Vanderlei Lopes, Wagner Morales, Gabriela Machado.

Texto

PAISAGEM BRUTA

A paisagem é um tema relativamente recente na história da arte. Surge com o advento da ciência moderna e a transformação da natureza em objeto do conhecimento. Pressupõe um olhar à distância, de fora, que a concebe como fenômeno pitoresco ou sublime. No começo do século XX, com o cubismo e as inovações tecnológicas e urbanas, a paisagem foi se “desnaturalizando”. A conquista do plano pela geometrização do espaço coincidiu com a perda da linha do horizonte. A cidade passou a ser o meio ambiente. A paisagem contemporânea é áspera e vertical. Há pouca respiração para o olhar, cuja fragmentação e mobilidade constantes impedem o distanciamento necessário para se apreender o todo. Tudo se processa e se transforma em uma deriva exasperante.
Montar uma curadoria vizinha à exposição do artista Ivens Machado obrigou-me a estabelecer um diálogo, procurar afinidades entre os artistas e sua poética. Esta aproximação seria também uma forma de criar um eixo, tanto conceitual como formal, para a seleção das obras. Olhando a lista de artistas da Galeria Virgílio, com a obra de Ivens na memória, fui percebendo uma possibilidade de abordar a paisagem urbana no que ela tem de brutalidade e fragmentação. A Paisagem Bruta do título remete à percepção da cidade como energia dilacerada.
Abandono, precariedade e insegurança são sensações recorrentes para quem vive hoje em uma grande metrópole, especialmente no Brasil. Ao mesmo tempo, cidades são possibilidades de encontro e de vida em comum. Ela é o lugar da multiplicidade e do conflito. Vivemos a sua crise, da mesma forma em que vivemos a crise da política e da democracia. Há que se reinventar a cidade para além dos regimes unificadores e planificados do urbanismo moderno. Qual o papel da arte neste processo? Assumir o conflito, expô-lo, trabalhar a precariedade e a fragmentação, requalificar nossa inserção no mundo em que vivemos.
Nas obras expostas a cidade aparece como imagem, materialidade, símbolo, fragmento e luz. A angústia está toda concentrada no presente. Vive-se a urgência das decisões imediatas. Esta é a brutalidade que se faz paisagem. A falta de perspectivas não retira a responsabilidade de se produzir e se criar diferenças no presente. Cada artista parte do que está à mão: dos materiais e da tecnologia necessários, dos resíduos e dos sonhos disponíveis, apropriando, deslocando, processando, produzindo uma visualidade ao mesmo tempo real e imaginária.
A realidade aí é a força viva que surge nas imagens e nos materiais trabalhados. O imaginário é o que garante os deslocamentos que nos põem diante não apenas do que é, mas do que pode vir a ser. As obras não nos explicam nada, não querem, nem podem, mudar por si a realidade; elas nos põem em confronto com aspectos de nossa visualidade cotidiana, sua precariedade e crueza. Não se trata de estetizar o precário ou de fazer qualquer apologia à brutalidade. Ela existe e deve ser vista e enfrentada para ser transformada. O que a arte pode é nos fazer perceber o mundo de outras maneiras e assim criar encontros entre o ver, o pensar e o transformar.
O que interessa nesta visão da Paisagem Bruta é a presença de uma energia que não se descola do presente. Uma força que atravessa a forma, a imagem e a presença bruta dos materiais. Por mais distintos que sejam os artistas e seus trabalhos, há neles uma aspereza e uma contenção que revelam uma economia poética de resistência ao mundo dócil da imagem publicitária e do consumo. A articulação das obras foi se dando a partir da convivência, das semelhanças formais, processuais, simbólicas. Como em uma cidade, a habitação foi estabelecendo normas de aproximação e construção. Não obstante a precariedade e a brutalidade, os encontros vão se fazendo possíveis e produzindo formas de resistência. A paisagem é bruta e é viva.

Luiz Camillo Osorio, setembro 2006

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