RELEASE

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Nino Cais

Rosana Paulino

Exposição 30 de Abril a 27 de Maio de 2006

Abertura   29 de Abril - Sábado às 11 horas

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs



Piso 1
Nino Cais

Exposição Individual

Na exposição que Nino Cais mostrará a partir de 29 de abril a 27 de Maio na Galeria Virgilio, o artista apresenta uma instalação feita com cadeiras em círculo em volta de uma coluna, postas sobre utensílios domésticos de vidro num jogo de tensões e limites. Fazem parte também da mostra, um video onde Nino apoia o corpo em objetos de vidro empilhados contra uma parede para deixa-los cair em seguida num circuito de repetições, uma foto e 10 desenhos inéditos realizados pelo artista e por sua mãe.

Nino vê a escultura como expansão do próprio corpo , não no sentido antropomórfico mas como significante de estruturas subjetivas: frágil, ténue, incerto, perecível, duro, tensionado, são qualidades moldáveis de um cenário familiar onde os objetos mais banais e os sentimentos mais intensos fundem como os metais nas siderurgias o outro objeto, o que está perdido.
Elementos do cotidiano que metaforizam sentimentos primitivos de dor, medo e desafio, organizados numa narrativa visual sensivel, que revelam a força poética do imaginário do corpo em sua relação com sua historia e seu entôrno.

Obras em exposição
Video, instalação, desenhos e objetos

Preços: menor R$ 1.400,00
Preços: maior R$ 8.000,00


Texto

O nó dos sonhos em Nino Cais
por Juliana Monachesi

O Nino e eu nos conhecemos no ano passado, em um projeto no Paço das Artes chamado Ocupação. Ele foi lá ocupar o espaço levando uma máquina de costura, desenhos e croquis de uma curiosa camisa que ele estava construindo para amarrar objetos da sua memória afetiva ao corpo. Eu fui lá acompanhar quase que diariamente o evento como crítica do Paço das Artes, para ir produzindo textos processuais, como era o trabalho dos artistas no evento. Naquela ocasião, escrevi este pequeno trecho a respeito da participação do Nino:

o happening que ninguém vê, do rapaz tímido que não quer se expor mas que se obriga a tanto porque é como as coisas funcionam. o pequeno príncipe dono de seu reinado de xícaras, pires, bules e outros utensílios carregados de afeto, de afetividade, de transitividade, de trânsito.

trânsito das sensações que (quase) todo mundo lembra da casa da avó, a maneira como o bule da avó nos faz sentir, o cheiro do café com biscoitos. o reinado da promessa de uma existência segura. o reino da proteção.

então, para proteger o legado do pires, o pequeno príncipe o embrulha em tecido branco e imaculado e o amarra a um suporte onde também são amarrados outros afetos embrulhados e a força de um nó somado à força do outro e do outro torna este invólucro quase indevassável, um abrigo nuclear.

e o suporte (o abrigo) para onde tudo converge é o corpo franzino do rapaz tímido.


Este ano nós nos aproximamos mais e trocamos muita idéia, participamos de projetos juntos, e a empatia foi tanta e as conversas tão ricas que arrisco dizer que nos tornamos amigos. É importante contar tudo isto antes de começar a escrever sobre a exposição individual dele na galeria Virgilio porque eu gostaria de partir, neste texto crítico, de uma confissão: tanto o Nino quanto eu sofremos uma perda este ano, perdas de natureza diversa, mas, todavia, perdas doídas, destas que deixam um vazio irreversível.

O motivo porque preciso contar isto é que foi ao lamentarmos nossas perdas um ao outro, e não ao discutirmos o trabalho que ele iria expor na galeria, que eu pude vislumbrar o sentido mais profundo de sua produção artística. A obra do Nino trata de perda, sua obra é constituída de líricas tentativas de reter e fixar o efêmero, tentativas estas fadadas ao fracasso, claro, porque há coisas que não se podem reter e perdas que não há como remediar. Mas na melancolia deste “fracasso” reside a potência dos trabalhos de Nino Cais.

Logo na entrada da exposição, vemos uma faceta menos conhecida de sua obra: os desenhos, que antes serviam como croquis para as fotografias, ganham autonomia e são expostos lado a lado com desenhos de pássaros feitos pela mãe do artista, Rita Cais. Por um lado, Nino vai buscar nas origens familiares, no avô artesão que fabricava tachos, colheres e bonecos, na avó que bordava e fazia rendas, na mãe que o ensinou a costurar a gênese de sua trajetória artística, ao mesmo tempo em que, apresentando desenhos seus em que um corpo aparece dotado de asas junto aos desenhos da mãe, ele configura um nó simbólico que amarra os sonhos de ambos.

“A gente não tem medo de morrer”, afirma o artista, “a gente tem medo de perder os laços, os nós que nos ligam afetivamente aos outros”. No vídeo que “encerra” a exposição, vemos Nino Cais segurando com o corpo vários objetos frágeis que, quando chegam ao limite suas forças de mantê-los fixos e, assim, protegê-los, despedaçam-se no chão. Esse vídeo, assim como a imagem impactante da instalação principal da mostra, em que uma dança das cadeiras impossível nos mantém suspensos, prendendo o ar diante da fragilidade da situação, colocam em xeque o “medo de perder os laços”.

Essa vontade de flutuar que todo o conjunto da exposição sugere é uma metáfora da permanência dos laços: sim, os objetos da memória afetiva se quebram, as nossas forças nunca são suficientes para proteger aquilo que amamos, a morte irrompe sem aviso prévio, mas os nós são perenes, e os vôos da imaginação artística e os sonhos aí estão para nos reafirmar esta única certeza.



Piso 2
Rosana Paulino COLÔNIA

Exposição Individual

Dando continuidade a uma ampla pesquisa iniciada em 1996 e denominada “O Mundo não tão silencioso dos Insetos”, a artista plástica Rosana Paulino continua suas investigações sobre uma possível afinidade entre componentes do comportamento feminino e o mundo dos insetos. Esta série é subdividida em diversos aspectos tais como “Casulos”, “Ovos” e “Tecelãs”, esta última mostrada na 4ª Bienal do Mercosul

Em “Colônia” a artista investiga temas ligados a solidão e vida em sociedade. Sobre a inusitada relação entre mulheres e insetos, ela afirma que: “Esta série tem como fio condutor dos trabalhos a metáfora entre alguns estados da alma e da psique feminina e um mundo pequeno e na maioria das vezes desprezado ou tido como inoportuno, o mundo dos insetos. É lendária a associação da mulher com alguns tipos de insetos (borda como uma aranha, obreira como uma abelha, delicada como uma borboleta, etc.) e tal associação avança desde a mitologia grega até a arte contemporânea. Quantas vezes, por exemplo, tecemos verdadeiros casulos em torno de nossos desejos e necessidades, nos encasulamos para nos protegermos do mundo?”

Neste momento, a exploração passa a questionar aspectos grupais da vivencia feminina. “COLÔNIA” é composta por esculturas que misturam materiais diversos como terracota, vidro, algodão e linha. A forma como as esculturas são dispostas no espaço evocam divisões hierárquicas decorrentes dos nomes das peças, fazendo alusão a relação entre um agrupamento de insetos, uma colméia, por exemplo, e a vida em sociedade. “Rainha”, “Operárias” e “Soldados” são nomes de algumas das pequenas esculturas (a maior tem 46 cm) presentes na exposição. Mais intimista, o grupo de desenhos em grande e pequeno formato revelam dados ligados a componentes psicológicos femininos, como nos desenhos intitulados “Carapaças de proteção”.

Obras em exposição
Desenhos e esculturas

Preço: menor R$1.500,00
Preço: maior R$ 5.500,00


Texto

A COLMÉIA COMO METÁFORA

A colméia costuma abrigar uma família de abelhas. Família esta composta por três castas: zangão, operárias e rainha.

A rainha se ocupa de pôr, pôr e pôr ovos num incessante movimento de moto contínuo, além de comandar e ser responsável pela harmonia da colméia. A rainha vive de um a cinco anos. Sempre majestosa, não divide seu poder nem sua influência. Tanto que na colméia nunca pode haver mais de uma rainha. Quando uma outra nasce, geralmente é morta por sua antecessora numa grande disputa.

Ao contrário da rainha, as operárias vivem de seis a oito semanas dependendo do ritmo de atividade diária. Limpam tudo, alimentam as larvas, constróem os favos, protegem a colméia, cuidam da temperatura e da ventilação. E, ainda por cima, são responsáveis pela coleta de pólen, água e tudo o mais necessário para a boa harmonia da colméia.

Já os zangões vivem apenas para a reprodução. Ao fecundar a rainha, o macho tem seus órgãos genitais presos a ela e, com muita sorte, terá apenas mais um dia.

Nas obras de Rosana Paulino, a artista nos apresenta peças em terracota como criaturas de uma colméia. Uma colméia imaginária; tudo de sua própria concepção já que na estrutura desta nova colméia coexistem a rainha, operárias e as soldados. Como em todo enxame a rainha permanece única, enquanto as soldados que são providas de tentáculos, seios e cercadas de casulos são em maioria. Nesta colméia as operárias se dividem em duas classes: há aquelas que trabalham incessantemente e as soldados que protegem o conjunto. As primeiras por terem que cuidar das crias são mais maternais e, por isso, são providas de diversos seios e olhos quase humanos. Já as soldados, não possuem olhos para não se distraírem de suas funções de proteção. São formadas por cacos de vidro, anzóis e vários apetrechos relacionados às armas. Elas protegem também a rainha, que na verdade é a grande escrava da comunidade, já que não tem possibilidade de fazer outra coisa a não ser procriar. Seu corpo é meio disforme e está sempre sendo cuidada com muito zelo.
A Colméia de Rosana Paulino é um desenvolvimento de obras anteriores desde remotos desenhos, onde seres se desenvolvem dentro de uma mulher, passando pelos Casulos que se transformam dentro dessa cápsula e, posteriormente, pelas Tecelãs, onde uma transformação genética dá origem a novos seres envoltos em uma seda assim como as larvas antes de se transformarem em borboletas. Com muita acuidade a artista só poderia mesmo chegar a este ponto, neste momento de sua obra. Tecnicamente as peças mereceram tamanha atenção e cuidado como poucos artesãos se utilizam da cerâmica. A dimensão aqui também é outra. O grande diferencial de Rosana Paulino é que ela nos transmite esse desenvolvimento de sua linguagem simbólica. Curiosamente, a organização espartana de sua Colméia evoca a visão que os cristãos medievais tinham das abelhas, como representantes do mesmo ideal de produtividade, ordem e castidade aspirado pelas comunidades monásticas. A tal ponto que, em 1260, um dominicano francês, o cônego Thomas de Cantimpre chegou a escrever O livro das abelhas, texto que sugeria a comunidade da colméia como paradigma para os integrantes das ordens sagradas.
Em sua simbologia pessoal, Rosana invoca a transformação dos seres vivos por meio da busca de uma disciplina capaz de conduzir à transcendência, e deixa transparecer uma influência da cultura africana em confronto com o modo de ser e viver em grandes metrópoles. Rosana Paulino cria uma poesia própria em seus seres demonstrando toda uma riqueza emotiva transferindo diversos significados em sua própria linguagem.

Franklin Espath Pedroso
Abril de 2006

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