RELEASE

VEJA AS OBRAS EXPOSTAS CLICANDO NO NOME DOS ARTISTAS ABAIXO

Tatiana Blass

Marcus Vinicius

Exposição 15 de Março à 08 de Abril de 2005

Abertura   15 de Março às 20h

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs


Tatiana Blass 1ºpiso

A obra de Tatiana Blass invade o espaço do óbvio e do corriqueiro no universo das coisas comuns para impor um silencioso estranhamento. Luis Camilo Osório observa que " É um colorido raro, diferenciado, mas feito de cores comuns, banais mesmo, beirando algumas vezes o kitsch. Falar da cor aí é falar de uma ousadia decorativa, de uma vontade desarmada de assumir um belo desconcertante. É desarmada no sentido de que nada em sua obra parece forçado ou artificial e é desconcertante porque é surpreendente.."

Obras em exposição >> pinturas, colagens, objetos e instalaçao
Quantidades >>   15 obras
Tamanhos     >> Variaveis


2ºpiso
Diego Belda

Diego Belda mostra 5 obras em grandes dimensões, que tratam da dilatação do conceito de pintura em direção ao espaço tridimensional   Segundo a visão de Guy Amado: Despontam indícios, aqui e ali, do que teóricos modernistas talvez se referissem como "síntese de uma tradição pós-cubista"; tanto nos esquemas compositivos mais coesos do conjunto como no que poderíamos entender como a técnica de colagem aplicada em uma escala "bruta".

Obras em exposição >>   5    Pinturas em grandes dimensões
Tamanhos
Menor > 200x 300cm
Maior > 300x450cm

local   convênio com estacionamento ESTAPAR




TEXTOS



[Tatiana Blass]

Por um belo desconcertante
Luiz Camillo Osorio


O desafio para quem escreve sobre a obra de Tatiana Blass é dar conta da pulsação cromática de sua obra. Ela conquista o silêncio com cores que berram. É um colorido raro, diferenciado, mas feito de cores comuns, banais mesmo, beirando algumas vezes o kitsch. Falar da cor aí é falar de uma ousadia decorativa, de uma vontade desarmada de assumir um belo desconcertante. É desarmada no sentido de que nada em sua obra parece forçado ou artificial e é desconcertante porque é surpreendente. Como é possível uma pintura cool usando cores tão “cheguei”? Uma outra pergunta se apresenta diante dessas divagações iniciais: será o belo ainda uma denominação pertinente e desejada pela arte? Temo esta palavra por conta de uma certa inviabilidade metafísica. O tempo e as múltiplas idealizações retiraram dela qualquer pregnância de sentido. Mas como deixá-la de lado? Será possível dar-lhe alguma atualidade? Decorativo, então, é xingamento deliberado. Pobre Matisse. Cabe dizer, entretanto, que isto não aconteceu à toa; de fato um esteticismo vazio e uma cooptação frente às determinações do mercado levaram a esta situação complicada em que o belo perdeu espírito e o decorativo abriu mão de qualquer rigor estético. Para uns o belo é impotente porque não se deixa apreender intelectualmente, para outros ele é indesejável pois se deixa seduzir pelo brilho decorativo.
É neste território minado em que impotência conceitual e insatisfação ética mostram-se de imediato que queremos tratar da beleza nas obras em questão. Diante das colagens, pinturas, objetos e instalações de Tatiana Blass nos vemos sempre em alerta, nossos sentidos ficam despertos, atentos e mobilizados. Deparamo-nos com formas desengonçadas mas precisas. Uma mistura poderosa de desassombro e intuição parece conduzir suas ações plásticas. A intuição aí não funciona como algo espontâneo, fácil, que daria à sua poética um caráter um tanto ingênuo. Não. O que se apresenta é uma sabedoria quase física dos materiais, principalmente das cores, que funcionam por contrastes de textura e temperatura. Uma pintura muitas vezes feita com materiais comuns e que apela ao nosso sentido tátil. Cores exaltadas e tímidas convivem sem se acomodarem. São poucos os artistas jovens hoje em dia que assumem a pintura com o mesmo frescor de Tatiana Blass.
O belo é o que produz uma diferença em nossa liga sensível com o que está a nossa volta, com o que é exterior. A autonomia do belo vai se dar no mesmo momento histórico em que o homem assumia sua maioridade política e espiritual. Esta possibilidade do belo coincide com a experiência de um sujeito livre para sentir e julgar, capaz de se postar frente ao mundo sem os constrangimentos de uma racionalidade instrumental que nos distingue a priori o certo do errado, o artístico do não-artístico. Schiller sacou esta relação entre a autonomia do juízo estético e sua vocação política – o sentido pleno de liberdade. O livre jogo das faculdades, caro à experiência estética, corresponde ao livre jogo entre os cidadãos anônimos da polis moderna. Há que se compreender o belo como um acontecimento singular que se apresenta aos sentidos, à percepção, e nos mobiliza a ver o mundo, senti-lo, de modo diferenciado. O belo nos retira de uma indiferença perante as coisas e nos faz desejá-las sem consumi-las. O difícil, e esta foi a principal razão de seus atritos com a metafísica, é que a experiência do belo vai ser sempre um acontecimento singular, calcada no sensível, que não se antecipa nem se define a priori. Ele se apresenta e temos que estar a postos. Ele é sempre diferente sendo sempre comum. É a diferença que se dá no meio do comum. Aqui voltamos aos trabalhos de Tatiana Blass, que quer o comum, nas suas cores, materiais, formas, para retirá-lo do reino da banalidade, da indiferença, do mesmo.

Muitas vezes suas peças se deixam contaminar por uma atmosfera kitsch, mas recusam o excesso sensorial. Há contenção sem sofrimento nenhum. A tonalidade afetiva que atravessa a obra mistura, curiosamente, alegria e tédio. Mas é um tédio que não inspira desapego, apenas um dar de ombros ao que não seja a presença gratuita e imediata da obra. É como se suas peças dissessem: pra mim tá bom assim. Baudelaire, guardadas as diferenças, acho que gostaria da atitude destas obras.
Outro aspecto importante que começa a aparecer em sua obra refere-se à relação entre pintura, colagem, objeto e instalação. Na verdade, creio que tudo leva a uma noção de ambiente, de criar um ambiente, uma atmosfera, onde a vida, a mais comum possível, possa ser vivida na sua estranheza originária. Seja na tela, seja fora dela, no espaço real, o que percebemos são campos de energia cromática e de formas sensuais que se propagam e nos abarcam. É um mundo de cores para ser sentido na pele. Vale dizer também que seus contos, suas pequenas peças literárias, dialogam de perto com tudo isso.

[Diego Belda]


PARA ALÉM DA PINTURA
Guy Amado

Ao me debruçar sobre o trabalho de Diego Belda em texto de pouco mais de ano atrás, a materialidade intensa de suas composições levou-me a adotar uma abordagem pelo mote de pintura além da pintura, a partir do que percebia como uma aparente vontade de ganhar o espaço tridimensional de que suas peças começavam a estar imbuídas. Já então percebia-se a presença de um fator desestabilizador em seus trabalhos, um elemento que dificultava um enquadramento de sua produção a um cânone claramente determinado, revelado sobretudo na incorporação descompromissada, à pintura, de materiais em princípio estranhos ao repertório usual da mesma.
Trancorrido esse tempo, o que se vislumbrava como uma tendência embrionária na práxis do artista agora se cristaliza como processo estabelecido. A ação de agregar matéria a suas composições se vê agora intensificada a tal ponto que desarma o espectador; se o procedimento ainda remete ao vocabulário da fatura pictórica, lido como acúmulo de camadas, ao mesmo tempo abala as certezas de se estar diante de pintura. Esse gesto, além de reafirmar o caráter eminentemente experimental da produção de Diego, pode ser lido como a busca por um outro patamar expressivo, mais liberado das estruturas lógicas convencionais do espaço pictórico. O rigor compositivo estrutural que ainda pontuava em sua produção anterior cede espaço a uma maior experimentação, em diversos sentidos – espacial, cromática, de materiais - inclusive eclipsando a fatura pictórica em si – as áreas efetivamente pintadas agora são em sua maioria discretas, por vezes reduzidas a quase coadjuvantes nesses imensos quadros-assemblages.
A escolha por um novo canal para a expressão, na obra de Belda, se manifesta na conformação de uma estética híbrida, alimentada por um sentido, digamos, do que me atrevo a levianamente definir como "neobarroco pós-industrial" [ah, os rótulos...], derivado da presença insólita dos diferentes materiais e objetos fixados ao suporte. Cabe ressaltar, contudo, que esse aparato "matérico", que agora avança mais decididamente para o espaço ou pende sem grandes pudores do plano da parede, se apresenta tanto quanto possível despido de função simbólica, atuando antes como elemento de organização formal e [des]estabilização interna no esquema compositivo. Ao fim das contas aproxima, portanto, o olhar da experiência pictórica ali travada.
Despontam indícios, aqui e ali, do que teóricos modernistas talvez se referissem como "síntese de uma tradição pós-cubista"; tanto nos esquemas compositivos mais coesos do conjunto como no que poderíamos entender como a técnica de colagem aplicada em uma escala "bruta". A massa heteróclita de elementos que convive e se projeta do plano pode evocar formalmente as combine paintings de Robert Rauschenberg, embora deslocamentos e recontextualização simbólicos deliberados e não estejam em jogo. A tensão orgânica que amarra alguns trabalhos e a tendência ao monumental dessa produção exalam por sua vez certa dose de romantismo, ao insinuarem uma dimensão épica no ato criador; seja como for, qualquer tentativa de abarcar essa produção de modo absoluto demonstra-se inapropriada ou insuficiente, dada sua singular combinação de linguagens. O que pode ser uma qualidade ou ao menos um trunfo para a mesma, nestes tempos em que vigoram categorizações tão implacáveis quanto vazias.
Como tudo na arte, esse procedimental guarda seus perigos. Não é raro observar que a escolha por determinado recurso técnico, movida naturalmente por inquietações internas à poética de um artista, pode se ver convertida em sedutoras e confortáveis soluções estilísticas, a serem aplicadas indefinidamente. Em pintura não é incomum assistirmos a tentativas de superação dos limites do plano bidimensional por meio de seu parâmetro intermediário mais imediato - a espessura, ou densidade; mas ainda assim estaríamos falando de superfície. Pois a produção de Diego avança para mais além, lançando-se no espaço e expandindo a experiência pictórica. Resta apenas saber como irá lidar com o risco do recurso à matéria tornar-se eventualmente um fim em si, e a finalidade técnica esgotar o senso de urgência expressiva que se espera da boa arte. Essa é uma perspectiva com que o artista deve conviver, como tantos talvez o façam. E não fugindo ao clichê, apenas o tempo dirá o rumo a ser tomado por Diego em sua jornada para além da pintura.
Se, como afirmou Jean Dubuffet em idos dos anos 50, "a verdadeira arte está sempre onde não a esperamos", Diego parece de certa forma se valer de uma interpretação oblíqua dessa assertiva: parte do porto seguro da pintura para ver sua arte tomar rumos imprevisíveis e inesperados, que a ele só resta seguir, calçado na experimentação

rua dr. virgilio de carvalho pinto 426 pinheiros - 05415-020 são paulo sp - (5511) 2373-2999