RELEASE

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Individual Felipe Cohen

Coletiva "Discordâncias"

Exposição 05 de Agosto a 28 de Agosto de 2004

Abertura   05 de Agosto às 20 horas

Visitação Seg a sex das 10 às 19hs  / Sab das 10 às 17hs



Primeiro piso
Exposição individual de Felipe Cohen, composta por cinco esculturas de chão e uma série de desenhos.
Tanto nas esculturas quanto nos desenhos o artista procura situações de tensão e equilibrio a partir do contato de materiais e formas com densidades distintas. O artista lida com mármore, vidro, ferro, feltro, plástico, também trabalha com linguagens e tamanhos variados.

Segundo piso
"Discordâncias", título da exposição coletiva com 6 artistas que usam a fotografia como suporte. Cada artista apresentará 5 obras inéditas .de dimensões variádas.
São artefactos singulares,arrancados de observações ordinárias de objetos aparentemente disponíveis e que no entanto reaparecem como construções de uma inteligência sensível, estruturadora de identidades do olhar.
Artistas participantes: Jurandy Valença ,Fernando Pião ,Maria Montero, Bruno H, Samantha Moreira ,Ricardo Vieira.


Os Vales de Felipe Cohen
Tiago Mesquita


Felipe Cohen monta agora a exposição mais variada de sua carreira. Em primeiro lugar, o artista se distanciou de seus mestres e fala com maior autonomia. No entanto, sua identidade não foi conquistada a partir de uma marca estilística. Seus objetos não se parecem uns com os outros. Fora três desenhos, todos partem de motivos muito diferentes. Ao percorrer a exposição, vemos vários materiais e soluções. Ele lida com feltro, ferro, vidro, objetos banais e a superfície do papel. Também trabalha com linguagens e tamanhos diversos.


Além de diferentes, eles não se relacionam e nem dialogam com o espaço da galeria. As peças tridimensionais são postas direto na sala de exposição, sem pedestal, apoiadas no chão ou na parede. Estão preocupadas com uma ordem que se faz e desfaz no seu interior.
Felipe é um artista mais atento à interioridade em suas peças do que à articulação pragmática da escultura com o espaço.
Por isso, talvez seja mais prudente voltarmos a critérios clássicos e agrupar os trabalhos de acordo com parâmetros técnicos. Temos um conjunto de desenhos e dois de escultura: o das peças maiores e outro das pequenas. As grandes não são enormes, só têm mais elementos e se espalham com maior folga pela sala. As outras têm cara de objeto. São concentradas, fechadinhas em si mesmas, relacionam dois elementos, um banal e industrial e outro da natureza, a bem dizer mármores muito bem cortados.


Os desenhos são os trabalhos que têm o maior número de características comuns. Partem de princípios estéticos mais determinados e de um procedimento que não varia muito. O artista evita ambientá-los. Não converte o espaço do papel em ilusão perspectiva e nem os usa para criar uma ação de personagens ou figuras. A ação é das linhas, que aparecem livres, soltas,sem muito esquema prévio. Em meio a um branco corrosivo, elas definem limites e contornam com delicadeza um espaço cego, criando imagens reconhecíveis. Enxergamos vales, chamas de vela e até covas. Os traços coordenam-se uns aos outros e formam uma miragem. Algo que conseguimos enxergar num branco estourado que retira a definição de tudo. O esforço é análogo ao do míope sem óculos. O sujeito aperta os olhos, e em meio a imagens difusas tenta identificar algo.


Depois disso, o artista preenche algumas formas, construídas pelas linhas, com uma massa fininha. Branca mesmo, mas não do mesmo branco que o papel. Ao invés de estabilizar a forma, o conteúdo torna o desenho ambíguo. A pele delgada adere ao contorno, criando uma zona indefinida. Atribui à forma uma profundidade que não víamos antes.


Ela aparenta maior volume do que a linha inicialmente sugeria. Além disso, essa quase cor vira mancha. Algo que não podemos pegar, como líquidos e chamas. Assim, quando a mancha parece um lago, não é um lago de agues plácidas. Está mais para a corrente que pressiona o dique. Esta pulsa contra os limites que a retêm, e pode até colocá-los em xeque. A divergência, porém, aparece suspensa. Apesar do conteúdo das linhas querer se expandir, ele não procura desestruturar os traços que o contêm, mas, pelo contrário, os unifica. Assim, aquelas linhas meio perdidas no papel raso mostram uma força antes imperceptível a nós.


Na escultura Caminho, o artista modifica este princípio. Aqui as fronteiras são mais rígidas e definidas. Cohen alinha na galeria três calhas de ferro muito parecidas. Ficam uma atrás da outra, de maneira serial, com intervalos regulares.
Assim, pareceriam soltas, como na escultura minimal. Mas um manto de feltro os cobre. O tecido desliza sobre cada calha. Quando passa pela estrutura de ferro, acomoda-se aos seus limites. Ao chegar nos intervalos, no entanto, ele se espraia. Mas não de modo anárquico. Alarga suas margens e forma um quadrado regular. Temos a impressão de vermos a poça mais ordenada de nossas vidas. Ao voltar para a próxima calha, o feltro retorna ao formato anterior, no tamanho do cano cortado. O material mole corre líquido. Segue uma toada estável, sem grandes surpresas. Ao invés de romper com a serialidade, o feltro unifica. À maneira das manchas nos desenhos.


De modo distinto, em Certo por linhas tortas o material mole também amarra elementos mais rígidos distribuídos em série. Uma mangueira fina e transparente passa por dentro de pedaços de canudos grossos ordenados em círculo. Apesar desta ordem sugerir um vínculo entre as peças, a delicadeza dos tubinhos impede que vejamos todos juntos como uma obra íntegra. São pequeninos, pouco visíveis e só estão ajeitados. A mangueira que passa por dentro deles parece desordenar a estrutura: move-se de maneira mais orgânica, sai um pouco do círculo e ousa outros tipos de forma. Ela não segue a ordem que o círculo determina, se mistura com espaços vazios da galeria, incorpora coisas de fora e procura um desenho próprio. Mas, na verdade, é essa linha suave que dá unidade para as peças menores, atribuindo integridade à forma geométrica.


O procedimento é análogo à interpretação do saxofonista Anthony Braxton dos clássicos do Jazz*. A ordem das notas é parecida com a que está escrita nas partituras.
Porém, o artista incorpora o acaso. Faz com que percebamos silêncios, ruídos e outros elementos não harmônicos que correm paralelo ao que está nas pautas. Felipe faz isso também. Além de mostrar o banal que corre paralelo à arte, nos faz perceber manifestações poéticas neste mundo repleto de eventos simultâneos. Por exemplo, inscreve no meio da mostra objetos rotineiros, como um copo de requeijão e uma sacola plástica, que poderiam desviar nossa atenção das obras. Assim como Braxton. Cohen não preenche a arte com outros elementos apenas para percebermos o que corre a largo dela, mas também para que possamos perceber o melodioso em meio ao ruído. Não é por acaso que dentro do copo largado na exposição vemos uma forma de mármore rente ao vidro. No meio da confusão, encontramos um volume com a calma de um riacho que corre ao longe.
*Anthony Braxton, _Whats New in the Tradition_ (1974).




COLETIVA DE FOTOGRAFIA
Ela me incomodava profundamente, mesmo ausente
por Juliana Monachesi


Uma exposição de fotos hoje em dia deixa todo mundo desconfiado. É que a fotografia está em crise e a gente duvida que alguém tenha ainda o que dizer com ela. A gente se sente um pouco como aquele personagem de Beckett que, aflito diante de um quarto cheio de móveis, começa a tirar um por um, empilhá-los em outro lugar, até que sobra apenas um sofá, onde ele se senta, porque finalmente tem um espaço para estar. “Uma tal densidade de móveis ultrapassa qualquer imaginação”, lamenta-se.


Para quem está imerso na contemporaneidade, uma tal densidade de fotografias ultrapassa qualquer imaginação. Mas a gente tende a fazer o movimento inverso ao do protagonista de “Primeiro Amor”: em vez de tirar de um conjunto de imagens apenas uma ou de separá-las, propiciando uma apreciação estética individual e “plena”, a gente mistura tudo, começa a inventar relações onde nem existem, põe a mesa de ponta-cabeça, estende equilibrado sobre seus pés o tapete persa, coloca a cama na vertical e o vaso em cima dela.


A exposição coletiva “Discordâncias” foi feita assim. Entre a esquina que figura em “Insônia”, de Jurandy Valença, e a janela de trem de uma das peças da série “Para se ver onde se está”, de Samantha Moreira, não apenas o antigo poste de luz e a torre vista ao longe provocam uma aproximação entre as obras, mas também a sensação de passagem, de melancolia. Os traços mínimos da calçada e do bueiro falam de uma pressa ou de uma angústia que está no recorte abrupto de paisagem mesclada ao reflexo da janela do trem.


Depois as fotografias de Valença vão conversar também com as de Bruno H, transmutando capas de livro e escamas sintéticas (que parecem saídas de um estudo fotográfico de anatomia ou botânica) em pele. Isso porque, ao optar pelas grandes escalas, Valença evidencia as texturas e as nuances de cor, enquanto Bruno H, velando com filtros as imagens algo orgânicas que cria, obtém superfícies com volume (nisso ironizando a planaridade da fotografia).


Mas as imagens da série “Véu de Pele”, de Bruno H, podem também ser vistas como paisagens, e conviver assim com as imagens panorâmicas de Samantha Moreira - curiosamente desmaterializadas como aquela segunda pele das obras de Bruno H, uma vez que são fotografias impressas em lâminas adesivas que são, por sua vez, coladas em placas de vidro. Esta solução de montagem que a artista chegou põe em harmonia as idéias de peso e leveza, faz com que a contradição se dissolva. Algo desta operação está presente na série de Maria Montero: aquelas letras desproporcionais em relação ao ambiente em que estão dispostas levam para além do paradoxo.


É um mundo de artifício, mas também de poesia, como o é o das fotografias de Fernando Pião e Ricardo Vieira. Os recortes presentes nas obras de Pião são como ready-mades óticos. As paisagens reinventadas de Vieira são uma reciclagem conceitual de paisagens registradas um dia com ingenuidade. Sim, a fotografia está em crise, mas vários trabalhos fotográficos, como o destes dois artistas, problematizam esta crise e mostram que há muito a dizer. O personagem de Beckett afirma ainda, sobre seu primeiro amor: “Ela me incomodava profundamente, mesmo ausente”. É o que a fotografia faz com a gente.

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