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Em suspensão



O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha do horizonte
A árvore, a praia, a flor. a ave, a fome -
Os beijos merecidos de Verdade.


Fernando Pessoa [1888 - 1935]
Fragmento de Mar Português

Uma austera melancolia reverbera das imagens de Rafael Pagatini. O artista diria que se trata de saudade. Diria também que saudade, cujo sentido muitos acreditam existir na Língua Portuguesa, envolve a memória e a incita mais do que meras recordações, sendo capaz de instaurar um estado imaginativo, de fantasia. Diria, ainda, que a saudade exige algumas características: ausência, presença, leveza, solidão.

Rafael Pagatini é um artista que gosta de ponderar e de escrever sobre o seu trabalho. Ao fazê-lo, articula conceitos e autores, reflexões e percepções bastante pessoais, quase sempre em torno desse sentimento de incompletude que nos remete à privação de algo ou de alguém, de um lugar ou de uma experiência. A saudade, para ele, está associada à distância. Daí o aspecto fugidio e impalpavel de suas xilogravuras, mareadas por uma névoa que desvela e invoca sensações e passagens, desejos e lembraças, proximidades e afastamentos. Nesse cenário, como não encontrar a melancolia? Ela, que também pulsa no contraponto entre a natureza evanescente de suas imagens e o longo tempo dedicado a sua execução?

No cenário atual, no qual sempre se espera presteza e agilidade, soa como um despropósito a dedicação à linguagem da xilogravura. Técnica de impressão que remonta ao século XIV, ela requer paciência, contato direto com a matéria, bem como um tempo distendido para sua feitura. Esse tempo é ainda mais dilatado no caso de Pagatini, em vista das várias etapas construtivas de seu processo criativo, que passam pelo registro fotográfico digital, pela criação de retículas, culminando na lenta execução das matrizes e na impressão, a partir de ferramentas tão anacrônicas como colheres de pau. Em cada estágio, é lícito dizer, há muito de nostalgia: desde a escolha dos motivos, a maioria dos quais registros de vistas ou de situações vivenciadas pelo artista em sua cidade natal, Caxias do Sul, passando pela adoção da madeira, cujos odores e rugosidades aprendeu a conhecer ainda menino, junto à marcenaria do pai. Ao demorar-se sobre os blocos de caixeta, rasgando-lhe a carne e dando forma a suas estriadas e diáfanas composições, há, igualmente, a saudade antecipada do próprio tempo de confecção da gravura; tempo que, tal como a areia das antigas ampulhetas, escorre entre os dedos. O entalhe feito em cada matriz é, como todo minuto simbolicamente marcado nos relógios, sem volta. A decisão é o corte, e ele é definitivo.

Para alcançar o efeito inefável da neblina a partir das rígidas, escurecidas e visualmente pesadas matrizes de xilogravura, é necessário uma prática apurada. Pagatini a encontrou, primeiramente, na observação da obra, de gravadores japoneses como Hiroshige (1797-1858) e Hukusai (1760-1858), nomes emblemáticos do que se conhece como Ukiyo-e. Nessa tradição, situações do cotidiano, transitórias e tantas vezes fortuitas, são representadas com simplicidade e leveza, sendo que o efeito de profundidade, em muitas cenas, é alcançado pelo uso de linhas oblíquas. A compressão dessa técnica e de sua carga simbólica motivou o artista a também adotar diagonais. São elas que sangram as matrizes e que estabelecem o ritmo ora uniforme, ora intempestivo, de suas composições; são elas que promovem o jogo de cinzas e, com ele, de volumes e de fluidez; são elas que impõem o caráter espectral e paradoxalmente denso, consciente da efermidade; que tentam, enfim, representar aquilo que parece escapar. Em sua dinâmica silenciosa, as transversais baralham a percepção e sugerem trânsitos, um estado de suspensão.

Através de meticuloso e apaixonado ofício, entranhado, ele mesmo, das questões existenciais que busca suscitar, Rafael Pagatini afirma seu espírito romântico em plena contemporaneidade. E projeta universalmente, pelo poder da arte, sua consciência lírica acerca do tempo, da vaicuidade e da saudade, essa dor que melancolicamente permanece.

Paula Ramos
Crítica de arte, professora unto ao Instituto de Artes da UFRGS

 
 
by artebr.com