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Da ordem porvir
“Algumas vezes vejo uma coisa e então pinto-a. Outras, pinto-a e então vejo-a. Ambas são situações impuras, e não tenho preferência por nenhuma delas.” 1

O que dirige essa localização no espaço é um prelúdio que, ao se insinuar, já delineia a melodia e acaba por constituir a música que não podemos deixar de ouvir: coisa física, fluxo no ar.

É uma questão do tempo, de objetos a se escolher, diante dos quais deve-se cortar esse tato continuo e insípido, criar uma razão fundamentalmente orientada pelas dimensões, espacialidade.

Ocorre, então, uma simetria confiável entre a conexão das coisas nesse espectro da vida, mesmo que em existências vagas, e a esfera do pensamento inconcluso sobre o que será o trabalho quando contaminado por uma intenção estética, na medida ainda incalculável. Entre esses dois mundos vem a realidade fina do papel, onde se dilui o fato próprio à aderência real de uma técnica, permeando-a com ruído, ressonância de algum medo natural e do interesse invariável pelas coisas.

A frotagem é som puro, freqüência inalterada. Nem feitura, nem idéia. Nos trabalhos, vê-se a presença de algum líquido, quase seco, mas, de qualquer modo, o elemento antagônico ao atrito agudo do lápis sobre o campo branco; sinuoso, propenso a ampliações óticas, imprecisões sobre a superfície, trânsito das próprias distâncias vistas indeterminando o que seria relevante apenas por pequenos acidentes das coisas e matérias preexistentes.

Na área mais ampla, que não cabe na moldura e formato do suporte eleito, determina-se uma habitação. Antes da cidade, as construções em que se instalam, reinstalam essas coisas que, de maneira estranha, continuam não sendo, estão boiando no tempo e espaço exteriores ao trabalho.

Já nesse lugar novo, expositivo, arma-se uma reestruturação de tudo, em feixes de linhas, amassadas, potenciais. Pela mediação feita não é difícil imaginar que o que fica, se cria em cada segmento, as obras, acabam por determinar, inesperadamente, o entorno mais próximo e, esse entorno, o mundo até aqui ou aí.

Rafael Vogt Maia Rosa, 2002

1 Jasper Johns

 
 
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